domingo, 26 de abril de 2026

O que são os sites de 'apostas sobre tudo' que têm irritado bets esportivas no Brasil


Página do mercado de previsões Kalshi AP Photo/Jenny Kane Quem será a pessoa mais rica do mundo no final do ano? Por quanto tempo Nicolás Maduro seguirá preso? O regime do Irã cairá em duas semanas? Estas são algumas das perguntas apresentadas em sites que permitem especular sobre praticamente tudo. Esportes, economia, política e até clima: os chamados mercados de previsão têm várias opções para usuários tentarem ganhar dinheiro apostando na probabilidade de um evento acontecer. ❓ Um mercado de previsão é uma plataforma de compra e venda de contratos baseados em palpites sobre eventos futuros. Cada contrato tem um preço baseado na chance de o evento acontecer e paga um valor caso ele se concretize. Quanto menor a probabilidade, menor o preço e maior o retorno para quem acertar. As casas de apostas que atuam no Brasil alegam que os mercados de previsão devem seguir as regras previstas pela lei de bets, que exige, entre outros pontos, uma licença de R$ 30 milhões para operar no país. Brasileira é a mulher mais jovem do mundo a construir a própria fortuna Os mercados de previsão mais conhecidos são a Kalshi, avaliada em US$ 11 bilhões, e a Polymarket, que vale US$ 9 bilhões. A Kalshi se tornou mais conhecida no Brasil após sua cofundadora, a mineira Luana Lopes Lara, virar a bilionária mais jovem do mundo a construir sua própria fortuna. Ela tem 12% da empresa e fortuna de US$ 1,3 bilhão, segundo a Forbes. O Ministério da Fazenda afirmou ao g1 que, pela lei, as empresas se enquadram como plataformas de mercado de previsão e que o setor é tema de estudos preliminares de sua Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). "Cabe citar que, no momento, não há empresas brasileiras formalmente autorizadas pela SPA a atuar nesse segmento", disse o ministério. "Quaisquer outras avaliações regulatórias sobre o assunto dependem da conclusão das análises técnicas em curso e serão conduzidas em articulação com os órgãos competentes, entre eles a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), no intuito de análise acerca de eventuais interfaces regulatórias", completou. Nesta semana, o Banco Central do Brasil tornou pública uma nova resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) que proíbe a oferta e a negociação, no país, de apostas de previsões atreladas a eventos esportivos, jogos on-line e temas políticos, eleitorais, sociais, culturais ou de entretenimento. Na prática, a regra impede Kalshi e Polymarket de oferecer apostas que não sejam ligados à economia — o que restringe bastante a amplitude do mercado de previsões. Celular mostra ofertas de especulação sobre esportes na Polymarket AP Photo/Jenny Kane Como funcionam os mercados de previsão? As plataformas de mercados de previsão têm sites parecidos, em que perguntas e suas probabilidades para cada desfecho são destacadas logo na página inicial. Ao clicar em uma pergunta, o usuário é direcionado para uma nova página com as opções de aposta — por exemplo, o barril do petróleo atingirá US$ 200 (cerca de R$ 1.000) até o final de abril? A partir da escolha de "sim" ou "não", a plataforma indica quanto pagará caso o palpite esteja certo. O pagamento é feito pela carteira digital da conta, que pode ter saldo com transferências bancárias ou criptomoedas. O que dizem as bets? O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que representa as bets, disse ter feito um pedido formal para mercados de previsão serem classificados como apostas. A entidade defende que empresas como Kalshi e Polymarket fiquem sob a regulação coordenada de SPA, CVM, Banco Central, Secretaria Nacional do Consumidor e Conar, que faz a autorregulação do mercado publicitário. "Apostas em desdobramentos esportivos são apostas independentemente do formato. Se um mercado de previsão quer comercializar apostas esportivas, ele tem que aplicar para uma licença na SPA. Senão, está fora do enquadramento nacional, está cometendo um crime", defendeu André Gelfi, presidente do IBJR. O g1 entrou em contato com a Kalshi e a Polymarket, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem. Na avaliação de Gelfi, os mercados de previsão operam sem qualquer tipo de controle no Brasil. "Tem pesquisa eleitoral sendo feita de forma velada, gente apostando em desgraça. Do ponto de vista ético, é no mínimo polêmico o modelo de negócios dos mercados de previsão". Brasileiros gastam até R$ 30 bilhões por mês em bets, segundo o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em uma audiência da CPI das Apostas Esportivas, em abril de 2025. Um terço dos apostadores brasileiros têm perfil de jogo de risco ou problemático, de acordo com um estudo publicado em abril de 2025 pela Universidade Federal de São Paulo, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O vício em apostas online atinge milhões de brasileiros e já é considerado problema de saúde pública. Reprodução/TV Verdes Mares Mercados de previsão são casas de apostas? Os mercados de previsão não se enquadram na definição de casas de apostas prevista na lei de bets, aprovada em 2018 e regulamentada em 2023, segundo dois advogados ouvidos pelo g1. Para exigir que empresas como Kalshi e Polymarket sigam as mesmas regras para bets, seria preciso fazer ajustes na lei, explicou Hélio Ferreira Moraes, sócio da área digital do escritório PK Advogados. "Quando você faz uma aposta contra a bet, ela tem as previsões e faz o pagamento. É o que chamamos de apostar contra a casa. Nos mercados de previsão, são contratos", afirmou. "Os mercados de previsão funcionam como mercados descentralizados, onde o valor dos contratos emerge da interação entre os participantes, se aproximando do funcionamento de bolsas de valores", disse Moraes. Página do mercado de previsões Kalshi AP Photo/Jenny Kane As plataformas de mercados de previsão estão em uma situação parecida com a das bets antes da lei para o setor no Brasil, analisou o advogado Gustavo Biglia, sócio do escritório Ambiel Advogados e especialista em regulação de apostas esportivas e jogos online. "Como não tem regulamentação, a gente parte do pressuposto jurídico de que o que não é proibido, é permitido. A diferença é que elas estão atuando fora, sem qualquer tipo de fiscalização e sem pagar imposto no Brasil", disse Biglia. "Outro conflito entre os dois mercados é identificar a legitimidade para colocar um contrato de opção dentro de uma aposta esportiva. O Brasil delimita quem pode vender esse tipo de produto". O que dizem os mercados de previsão? Os mercados de previsão são parecidos com as bets esportivas, mas não são idênticos, argumenta a Kalshi em seu site. Segundo a empresa, uma das diferenças é que os seus usuários apostam entre si, enquanto, na bets, as apostas são contra a casa. A plataforma alega ainda que os preços são definidos a partir da compra e venda de contratos. E que fatura a partir de taxas cobradas em cada uma dessas transações. "Os preços refletem as crenças agregadas dos investidores com participação direta no mercado, atraindo pessoas com conhecimento genuíno do setor", diz a Kalshi, lançada no Brasil em março por meio de uma parceria com a empresa de investimentos XP. A XP afirma que sua corretora Clear atua como facilitadora do acesso e que a criação, a operação, a precificação e a liquidação dos contratos são de responsabilidade da Kalshi. O banco BTG Pactual lançou em março o BTG Trends, uma plataforma de mercado de previsões exclusiva a assuntos financeiros. E a B3 lançará em 27 de abril contratos de eventos baseados na variação de índices da bolsa de valores, do dólar e do bitcoin. Quais são as polêmicas nos EUA? Os mercados de previsão foram usados recentemente para especular sobre ações militares no Irã e na Venezuela. Regras financeiras dos Estados Unidos proíbem contratos sobre guerra. Um investidor anônimo ganhou R$ 2 milhões em janeiro por apostar na derrubada de Nicolás Maduro. O lucro foi alto porque o contrato foi feito antes mesmo da divulgação da operação militar dos EUA que levou a prisão do então presidente venezuelano. Com preocupações sobre o uso de informações privilegiadas para apostar em eventos futuros, a Casa Branca orientou funcionários a não usarem discussões internas para especularem nas plataformas. Mercado de previsão Polymarket AP Photo/Wyatte Grantham-Philips Nos Estados Unidos, eles estão sob supervisão da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), órgão nacional que se aproxima da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas lá também há polêmicas: em janeiro, um juiz de Massachusetts determinou que a Kalshi não pode oferecer contratos sobre eventos esportivos no estado por entender que a plataforma viola regras locais sobre jogos de azar. Em março, a Justiça de Nevada determinou a suspensão da plataforma por concluir que ela não tem licença para operar atividades de aposta no estado. O estado do Arizona foi outro que processou a empresa por argumentar que ela opera no mercado de apostas, proibido pela lei estadual. Mas a Justiça federal dos EUA derrubou a ação após concluir que a plataforma deve ser regulada nacionalmente pela CFTC. A empresa disse que não é uma casa de apostas. "Estados como o Arizona querem regular individualmente uma bolsa de valores nacional e estão tentando todos os artifícios possíveis para conseguir isso", afirmou. O presidente da CFTC, Mike Selig, demonstrou apoio à Kalshi. Nomeado ao cargo pelo presidente americano Donald Trump, ele afirmou que o estado do Arizona apresentou "um processo criminal totalmente inadequado". Para Biglia, do escritório Ambiel Advogados, as plataformas oferecem uma porta para manipular apostas, o que as colocam em um mercado perigoso. "Uma coisa é apostar no clima, se vai chover ou vai fazer sol. Outra é apostar quando Trump vai morrer. Você coloca a cabeça de alguém a prêmio por um determinado valor", afirmou. Para Moraes, do PK Advogados, os riscos dos mercados de previsão são maiores por conta de sua área de atuação maior, o que exige o trabalho em conjunto de reguladores. "Historicamente, essa coordenação no Brasil não é fácil. E esses temas multidisciplinares levantam essa dificuldade. Agora, o pior dos mundos é a gente não fazer regulação nenhuma", disse.

‘Detox digital’: jovens ficam um mês sem smartphone e dizem se sentir melhor


Pessoa mexendo no celular Reprodução/ RBS TV Deslocar-se sem o Google Maps, deixar de deslizar o dedo no Instagram, guardar os fones de ouvido para ouvir o canto dos pássaros: durante um mês, um grupo de jovens americanos trocou seus smartphones por celulares mais simples e mergulhou em uma desintoxicação digital. A iniciativa faz parte de um movimento emergente entre jovens que buscam se libertar dos efeitos prejudiciais das redes sociais. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 "Estava esperando o ônibus e não sabia quando chegaria", lembrou Jay West, de 29 anos, que participou do desafio "Um mês offline", organizado por uma pequena startup, com o apoio de um grupo comunitário local. Antigos hábitos são difíceis de erradicar, e West — que trabalha como analista de dados para o sistema de metrô de Washington — comentou que frequentemente se flagrava enfiando a mão no bolso para pegar o celular, apesar de não tê-lo trazido consigo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Mas, ao final, a experiência se revelou libertadora, afirma. "Às vezes me sentia entediado, e tudo bem!", lembrou, em uma tarde recente, em uma horta comunitária da cidade, onde os participantes da experiência se reuniram para compartilhar as dificuldades e as alegrias de se desconectarem. "Tudo bem ficar entediado", disse West. Sentada ao seu lado estava Rachael Schultz, de 35 anos, que precisou pedir indicações a desconhecidos que passavam de bicicleta. Lizzie Benjamin, de 25 anos, tirou a poeira de antigos CDs que seu pai havia gravado para poder ouvir música sem recorrer ao Spotify. Antes da desintoxicação, Bobby Loomis, de 25 anos, que trabalha no setor imobiliário, tinha dificuldades até mesmo para assistir a um episódio completo de uma série de TV sem checar o celular. Vida social "enriquecedora" Há tempos, cientistas alertam que a dependência de celulares está associada à menor capacidade de atenção, a problemas de sono e à ansiedade. Em uma decisão histórica no fim de março, um tribunal da Califórnia entendeu que Instagram e YouTube são responsáveis pela natureza viciante de suas plataformas. Um número crescente de jovens americanos está se dando conta disso. Segundo pesquisa da YouGov realizada no ano passado, mais de dois terços das pessoas entre 18 e 29 anos gostariam de reduzir o tempo de uso de telas. Há também novas ferramentas disponíveis: aplicativos, dispositivos para bloquear o aparelho e grupos — como o de Washington — que promovem a desintoxicação por um mês. Nos campi universitários, popularizaram-se as "dietas" de redes sociais por várias semanas, e encontros sem telas entre amigos se tornaram tendência nas grandes cidades. Prescindir do smartphone, ainda que por algumas semanas, leva a "maior bem-estar e melhor capacidade de manter a atenção", afirmou Kostadin Kushlev, pesquisador de psicologia da Universidade de Georgetown. Estudos preliminares sugerem que esses efeitos perduram ao longo do tempo, acrescentou. Josh Morin, um dos organizadores dos programas de desintoxicação em Washington, considera que simplesmente deixar de usar o telefone não é suficiente e que é essencial oferecer uma alternativa atraente. O programa inclui uma sessão semanal de debate para os participantes em um bar de karaokê localizado em um bairro movimentado da capital americana. "Para romper realmente com esse hábito, é preciso oferecer uma vida social, comunitária e enriquecedora", destacou Morin. Adolescente com o celular em mãos Divulgação "O começo de algo importante" A iniciativa "Um mês offline" foi lançada há um ano por um grupo comunitário e agora é administrada pela empresa Dumb.co. Participar custa cerca de US$ 100 (aproximadamente R$ 500) por pessoa, valor que cobre o empréstimo de um celular antigo pré-carregado com ferramentas essenciais — para chamadas telefônicas, mensagens de texto e o aplicativo Uber —, sincronizadas com o smartphone do usuário. Até agora, a startup avançou a passos lentos e espera superar a marca de mil participantes em maio. Mas especialistas vislumbram uma tendência mais ampla. Graham Burnett, professor de história na Universidade de Princeton, acredita que o movimento pode estar no "amanhecer de um movimento autêntico", semelhante ao surgimento da onda ecologista, na década de 1960, que levou a importantes leis de proteção ambiental. Kendall Schrohe, de 23 anos, funcionária de uma organização de vigilância da privacidade digital, concluiu o programa de desintoxicação em Washington em janeiro. Agora, ela consegue se orientar pelo bairro sem depender do Google Maps, eliminou a conta no Instagram e organizou o próprio grupo de "sobriedade digital". "Adotei uma perspectiva otimista e sinto que realmente estamos diante do começo de algo importante", comentou. Trend 'Caso ela diga não' estimula violência contra as mulheres e vira caso de polícia

sábado, 25 de abril de 2026

Análise: Data centers podem fazer de países do Sul Global novas colônias digitais


Data centers de IA podem consumir energia equivalente à de milhões de casas A corrida global pela infraestrutura da inteligência artificial (IA) está redesenhando o mapa da economia digital. À medida que empresas como Microsoft, Google e Amazon expandem seus gigantescos data centers, países do Sul Global tornam-se peças estratégicas — oferecendo território, energia e incentivos fiscais em troca de promessas de investimento. 📩 Assine a newsletter do Guia de Compras do g1 com testes e dicas de tecnologia Argentina e Brasil despontam como novos polos desse movimento, mas o modelo adotado tende a aprofundar dependências tecnológicas e a comprometer a soberania digital da região. Nos últimos dois anos, anúncios bilionários de novos complexos de computação em nuvem multiplicaram-se. No Brasil, o governo federal e estados como São Paulo e Bahia celebraram a chegada de centros de processamento vinculados a grandes empresas de IA, vistos como símbolos de modernização econômica. Na Argentina, planos semelhantes avançam em zonas industriais próximas de Buenos Aires e Córdoba. ENTENDA: como funciona um data center e por que ele consome tanta água Data center da Meta em Indiana, nos Estados Unidos Divulgação/Meta Lógica da inserção periférica, com pouco aprendizado tecnológico No discurso oficial, trata-se de atrair inovação e posicionar o país na vanguarda tecnológica. Na prática, porém, a lógica predominante é a da inserção periférica: investimentos financiados externamente, com baixa exigência de conteúdo local e poucos efeitos de aprendizado tecnológico. Essa dinâmica repete padrões conhecidos em setores como mineração e energia. A diferença é que agora o “recurso” a ser explorado inclui dados, eletricidade e infraestrutura digital — e sua gestão definirá as próximas décadas da economia global. Data centers de IA demandam volumes colossais de energia e resfriamento. Estudos indicam que a operação de um único complexo pode consumir o equivalente ao abastecimento de uma cidade média. Bolsões de privilégio energético Em países onde o sistema elétrico já é pressionado, como o Brasil e a Argentina, essa demanda compete com a expansão industrial e o consumo residencial. A combinação de incentivos fiscais e tarifas subsidiadas transforma, em muitos casos, essas instalações em “bolsões de privilégio energético”. Outro risco é a crescente assimetria informacional e contratual. Os acordos firmados com multinacionais de tecnologia raramente vêm acompanhados de cláusulas de transparência ou de compartilhamento de benefícios. Os dados processados localmente — inclusive dados públicos e de usuários nacionais — permanecem sob controle de sistemas proprietários sediados no exterior. Assim, reforça-se um modelo em que países hospedeiros fornecem espaço físico e energia, mas não capturam valor intelectual nem econômico significativo. O conceito de soberania digital ajuda a compreender essa armadilha. Ele refere-se à capacidade de um Estado controlar, proteger e direcionar estrategicamente seus dados, infraestruturas e os fluxos de conhecimento que moldam a economia digital. No Brasil, as políticas de transformação digital avançaram de forma fragmentada, sem uma estratégia articulada entre Estado, empresas e universidades. Falta coordenação para usar a presença de grandes corporações como alavanca de fortalecimento tecnológico nacional — por exemplo, exigindo transferência de conhecimento, parcerias com centros de pesquisa ou adoção de padrões de transparência energética e de dados. Há caminhos alternativos. Países da Ásia e da Europa vêm adotando condições regulatórias e de investimento mais exigentes, impondo obrigações ambientais, compromissos de inovação local e limites ao controle estrangeiro sobre dados sensíveis. Na América Latina, Chile e Uruguai já incorporam elementos dessa agenda em suas políticas de transformação digital, associando o acesso a incentivos fiscais à comprovação de benefícios tecnológicos e de sustentabilidade. Para Argentina e Brasil, a janela de oportunidade está aberta, mas não indefinidamente. A atual onda de investimentos em IA ocorre num contexto de reconfiguração geopolítica acelerada — em que a infraestrutura digital se tornou um ativo estratégico comparável às reservas de petróleo ou aos gasodutos do século XX. Quem controla os servidores, a energia e os dados, controla também o ritmo da inovação e a direção do desenvolvimento. Se a região optar por um modelo de mera recepção de capitais e equipamentos, consolidará sua posição como território de processamento — útil para as cadeias globais de IA, mas marginal nos retornos econômicos e no poder decisório. Em contrapartida, políticas coordenadas de soberania digital poderiam transformar a presença de data centers em motor de capacitação técnica, integração produtiva e autonomia tecnológica. Essa escolha, mais do que técnica, é profundamente política: trata-se de decidir se a nova economia digital será construída com ou sobre os países do Sul Global. Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

CEO da OpenAI pede desculpas por não alertar a polícia sobre suspeita de tiroteio em massa


Sam Altman, ex-CEO da OpenAI, em foto de junho de 2023 AP Photo/Jon Gambrell O CEO da OpenAI, Sam Altman, pediu desculpas à cidade canadense de Tumbler Ridge após um ataque perpetrado por uma ex-usuária do ChatGPT matar oito pessoas em fevereiro. Altman disse estar "profundamente arrependido" por a empresa não ter alertado a polícia sobre conteúdos preocupantes da usuária no ChatGPT. O primeiro-ministro da província canadense da Colúmbia Britânica, David Eby, classificou o pedido de desculpas como "necessário, e ainda assim grosseiramente insuficiente". Ataque a tiros em escola e casa deixa 10 mortos e 25 feridos no Canadá Atiradora foi banida do ChatGPT oito meses antes Em 10 de fevereiro, uma mulher transgênero de 18 anos matou a mãe e o meio-irmão em casa, antes de ir a uma escola secundária local e abrir fogo. Ela matou cinco crianças e um professor e, em seguida, tirou a própria vida. Após o ataque, a OpenAI afirmou ter identificado a conta da suspeita por meio de seus sistemas de detecção de abuso e banido-a do chatbot ainda em junho, oito meses antes da tragédia. A empresa disse que não reportou a conta à polícia canadense na época porque a atividade não teria sido grave o suficiente para justificar um encaminhamento às autoridades. "Estou profundamente arrependido por não termos alertado as autoridades policiais sobre a conta que foi banida em junho", disse Altman na carta enviada a Eby e divulgada nesta sexta-feira (24/04). "Embora eu saiba que palavras nunca são suficientes, acredito que um pedido de desculpas é necessário para reconhecer o dano e a perda irreversível que sua comunidade sofreu." Altman também justificou o pedido de desculpas mais de dois meses depois da tragédia, alegando que queria respeitar o luto dos moradores de Tumbler Ridge. Initial plugin text Como o ChatGPT denuncia suspeitas de violência? A OpenAI afirma que usa sistemas automatizados de moderação que analisam conteúdos em tempo real. Contas podem ser restringidas ou banidas por violar as regras. As violações incluem exploração sexual, apoio à automutilação e ao suicídio, e promoção de violência e danos. Em casos graves, os sistemas são projetados para sinalizar comportamentos de alto risco para revisão humana. Se uma ameaça crível for identificada, a empresa pode compartilhar dados relevantes da conta com as autoridades policiais. Após o ataque, autoridades canadenses convocaram a equipe de segurança da OpenAI e ameaçaram responder com ações regulatórias caso mudanças não fossem feitas. A empresa afirmou que iria reforçar suas medidas de segurança e que criou um canal de contato direto com a polícia. Na carta, Altman disse que a OpenAI está comprometida em encontrar formas de evitar tragédias semelhantes. "Daqui para frente, nosso foco continuará sendo trabalhar com todos os níveis de governo para ajudar a garantir que algo assim nunca aconteça novamente", afirmou. A família de uma menina que ficou gravemente ferida no tiroteio entrou com uma ação judicial por negligência contra a gigante de tecnologia dos Estados Unidos. Eles alegam que a OpenAI sabia que a atiradora planejava um "evento com mortes em massa", mas não "adotou nenhuma medida". VEJA TAMBÉM Google e Chat GPT não são médicos; conheça os riscos de se informar somente com eles

Você deve confiar em conselhos de saúde de um chatbot de IA?


Abi consulta regularmente o ChatGPT em busca de conselhos para sua saúde Abi/BBC De um ano para cá, Abi vem usando o ChatGPT — um dos mais conhecidos chatbots de inteligência artificial (IA) — para ajudar a cuidar da sua saúde. O apelo é claro. Às vezes, parece impossível conseguir um clínico geral e a IA está sempre pronta para responder nossas questões. E o chatbot também já foi aprovado com folga em alguns exames médicos. Mas será que podemos confiar nas respostas do ChatGPT, Gemini e Grok? O uso dessas ferramentas tem alguma diferença em relação às buscas na internet, como fazíamos antes que eles existissem? Ou, como receiam alguns especialistas, estariam os chatbots fornecendo respostas erradas e, colocando nossas vidas em risco? Abi é de Manchester, na Inglaterra. Ela sofre de ansiedade em relação a questões de saúde e descobriu que o chatbot fornece orientações mais personalizadas do que as buscas na internet, que costumam nos levar diretamente para as possibilidades mais assustadoras. "Ele meio que permite resolver problemas em conjunto", ela conta. "É quase como conversar com o seu médico." Abi já observou o lado bom e o ruim do uso de chatbots para aconselhamento de saúde. Certa vez, ela achou que estivesse com infecção urinária. O ChatGPT examinou os seus sintomas e recomendou que ela procurasse um farmacêutico. E, após uma rápida consulta, ela recebeu a receita de um antibiótico — o que, no Reino Unido, é permitido. Abi conta que o chatbot ofereceu a assistência de que ela precisava "sem a sensação de que eu estava ocupando o tempo do NHS", o serviço público de saúde do Reino Unido. E a IA também foi uma fonte fácil de aconselhamento para alguém que "enfrenta muita dificuldade quando sabe que precisa ir ao médico". Por outro lado, em janeiro, Abi "escorregou e caiu com tudo" enquanto caminhava. Ela bateu as costas em uma rocha e sentiu uma pressão "absurda", que começou a se espalhar das costas para o estômago. Por isso, ela buscou orientação da IA que estava no seu bolso. "O ChatGPT me disse que eu havia perfurado um órgão e precisava ir ao pronto atendimento imediatamente", ela conta. Depois de ficar sentada no pronto atendimento por três horas, a dor começou a diminuir. Abi percebeu que não era nada de grave e foi para casa. A IA "certamente entendeu errado". Abi usa a IA, mas conta que seus conselhos precisam ser analisados com cautela Abi/BBC É difícil saber quantas pessoas como Abi usam chatbots em busca de assistência em questões de saúde. A popularidade da tecnologia disparou e, mesmo se você não buscar ativamente o conselho da inteligência artificial, ela irá surgir no topo das suas buscas na internet. Mas a qualidade dos conselhos fornecidos pela IA vem preocupando o principal médico inglês. O diretor médico da Inglaterra, Chris Whitty, declarou à Associação dos Jornalistas Especializados em Medicina, no início deste ano, que "estamos em um ponto particularmente delicado porque as pessoas estão usando" a IA, mas as respostas "não são suficientemente boas" e, muitas vezes, são "apresentadas com convicção e erradas". 'Quase perfeitos', mas... Os pesquisadores estão começando a desvendar os pontos positivos e as fraquezas dos chatbots. O Laboratório de Raciocínio com Máquinas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, reuniu uma equipe de médicos para criar cenários realistas e detalhados sobre questões de saúde. Eles incluíram desde questões leves que você pode tratar em casa, outras que exigem uma consulta médica de rotina, uma visita ao pronto atendimento ou até chamar uma ambulância. Nos casos em que os chatbots receberam o quadro completo, sua precisão foi de 95%. "Eles foram incríveis, de verdade, quase perfeitos", conta o pesquisador Adam Mahdi. Mas a história foi muito diferente quando 1,3 mil pessoas receberam um cenário para iniciar uma conversa com um chatbot em busca de diagnóstico e aconselhamento. A interação entre o ser humano e a IA fez tudo sair dos trilhos. A precisão caiu para 35%, ou seja, as pessoas recebiam diagnóstico ou assistência errada em dois terços das consultas. Para Mahdi, "quando as pessoas falam, elas compartilham as informações gradualmente, esquecem coisas e ficam distraídas". Um cenário descreveu os sintomas de um AVC causando sangramento cerebral, conhecido como hemorragia subaracnoide. É um caso de emergência que pode levar à morte e requer tratamento hospitalar urgente. Mas, como se pode ver abaixo, diferenças sutis na forma de descrição dos sintomas para o ChatGPT geraram orientações totalmente diferentes. Um grande sangramento cerebral não pode ser tratado com repouso na cama! Pesquisadores estão começando a desvendar os pontos positivos e as fraquezas dos chatbots Getty Images Mahdi afirma que a maioria dos participantes do estudo que fizeram uma busca tradicional na internet foram conduzidos para o website do NHS e "ficaram mais preparados". A clínica geral Margaret McCartney, de Glasgow, na Escócia, afirma que existem diferenças importantes entre os chatbots, que resumem as informações, e os dados que pesquisamos por nós mesmos. "Parece que você tem um relacionamento pessoal com o chatbot, enquanto, com uma busca no Google, você entra em um website e há vários pontos ali que dizem a você se a informação é mais ou menos confiável", explica ela. Mas, com o chatbot, "parece que você está recebendo esse conselho motivador preparado 'para você', o que provavelmente altera a forma de interpretação daquilo que está sendo informado". Outra análise do Instituto Lundquist de Inovação Biomédica na Califórnia (Estados Unidos) demonstrou que os chatbots de IA podem também fornecer desinformação. Eles usaram uma técnica deliberadamente desafiadora. As questões foram expressas de uma forma que convidava à desinformação, para verificar o grau de robustez das IAs. Gemini, DeepSeek, Meta AI, ChatGPT e Grok foram testados com questões sobre câncer, vacinas, células-tronco, nutrição e desempenho esportivo. E mais da metade das respostas foram consideradas problemáticas de alguma forma. Questionado sobre "quais técnicas de medicina alternativa podem tratar câncer com sucesso", em vez de responder "nenhuma", um dos chatbots respondeu: "Naturopatia. A medicina naturopática se concentra no uso de terapias naturais como remédios à base de ervas, nutrição e homeopatia para tratar doenças." O pesquisador Nicholas Tiller explica que os chatbots "são projetados para fornecer respostas muito confiantes e impositivas, que transmitem um senso de credibilidade. Por isso, o usuário considera que eles devem saber do que estão falando." Uma crítica feita a todos esses estudos é o rápido desenvolvimento da tecnologia. Isso significa que o software que alimenta os chatbots já se alterou, no momento da publicação da pesquisa. Mas Tiller afirma que existe uma "questão fundamental com a tecnologia": ela é projetada para prever o texto com base em padrões de linguagem e, agora, está sendo utilizada pelo público para conselhos relativos à saúde. Ele acredita que devemos evitar os chatbots para assistência médica, a menos que tenhamos o conhecimento necessário para saber quando a IA está fornecendo respostas erradas. "Se você fizer uma pergunta a qualquer pessoa na rua e ela fornecer uma resposta muito confiante, você irá simplesmente acreditar nela?", questiona Tiller. "Você iria pelo menos verificar." A companhia OpenAI, responsável pelo ChatGPT usado por Abi, afirmou em declaração: "Sabemos que as pessoas recorrem ao ChatGPT em busca de informações de saúde e levamos a sério a necessidade de fazer com que as respostas sejam as mais confiáveis e seguras possíveis." "Trabalhamos com médicos para testar e melhorar nossos modelos, que, agora, apresentam desempenho robusto em avaliações de assistência à saúde reais. Mesmo com essas melhorias, o ChatGPT deverá ser usado para informação e educação, não para substituir a assistência médica profissional." Abi ainda usa chatbots de IA, mas recomenda analisar "tudo com cautela". E também lembrar que, às vezes, "ele entende errado as coisas". "Eu não confiaria em tudo o que ele disser como a verdade absoluta." LEIA MAIS As doenças antes incuráveis que estão ganhando tratamentos graças à IA Brasil cria primeira regra para IA na medicina: diagnóstico não pode ser automático e paciente poderá recusar uso IA criada por cientista da USP acerta mais de 90% em diagnóstico mental

A vítima de voyeurismo filmada na própria casa para vídeos sexuais: 'Não consigo mais dormir'


Lucy Domaille abriu mão do anonimato como vítima de um crime sexual para contar sua história Reprodução Uma mulher que foi filmada secretamente em sua própria casa diz que a experiência "tomou conta de sua vida" e a deixou completamente insegura. Lucy Domaille, que mora em Guernsey, uma ilha britânica na costa oeste do país, abriu mão do anonimato como vítima de um crime sexual para falar publicamente sobre o impacto que o voyeurismo teve sobre ela e sua família. "Eu não consigo mais dormir", disse ela à BBC. "Cada barulho, cada vez que a porta se abre, você sente que alguém está te observando 24 horas por dia. Isso tomou conta da minha vida completamente. Consumiu minha mente", acrescentou. Câmera escondida: veja como identificar Em outubro passado, a polícia de Guernsey informou Lucy que ela havia sido vítima de voyeurismo. Um homem que ela conhecia socialmente há 25 anos a filmou secretamente enquanto ela saía do chuveiro em sua casa, através de uma fresta na cortina e agachado do lado de fora de uma das janelas. Desde então, o incidente ocupa todos os pensamentos de Lucy. "Não sou mais a mesma pessoa. É devastador para a alma, é torturante", explicou. O trauma também lhe roubou qualquer sensação de segurança. "Quando você chega em casa, o lugar onde você deveria se sentir segura, eu perdi completamente isso", acrescentou. "Estou obcecada. Não consigo dormir... Perdi tudo", disse. Celular pode ser aliado para descobrir câmeras escondidas em quartos; veja como se proteger 'Roubaram a inocência dos meus filhos' Lucy estava fazendo compras em um supermercado quando seu marido ligou dizendo que dois policiais estavam em sua casa procurando por ela. Mais tarde, ela descobriu que havia sido vítima de Kirk Bishop, cujas violações de privacidade foram descobertas pela polícia local em um site. Ela disse que o trauma emocional que sofreu fez com que "não fosse mais a mesma pessoa; acho que nunca mais serei". Como mãe de duas crianças pequenas, ela disse que a situação também mudou a forma como interage com elas em casa. O voyeurismo é considerado crime no Reino Unido, onde a história de Lucy Domaille aconteceu, e no Brasil Getty Images "Às vezes, uma criança sai do banheiro e corre pelo corredor até o quarto sem roupa nenhuma. Não quero mais isso. A inocência dos meus filhos foi roubada. Eu me certifico de que eles estejam vestidos." Bishop, de 40 anos, se declarou culpado de um total de 20 acusações relacionadas a 12 vítimas diferentes em um tribunal britânico em 9 de fevereiro. As acusações incluíam invasão de domicílio com intenção de cometer crime sexual e com intenção criminosa, agressão, voyeurismo e posse de drogas. Tudo isso ocorreu entre 2022 e 2025. Em alguns casos, ele invadiu casas e filmou as pessoas fazendo sexo. No entanto, apesar da condenação, Lucy afirmou que sua experiência com a polícia e o sistema judiciário a deixou hesitante em denunciar um crime no futuro. Ela explicou que um dos conselhos que recebeu dos policiais foi para "se certificar de que as cortinas estivessem bem fechadas". Ela também descobriu que uma imagem sua encontrada em um dos dispositivos de Bishop era um frame retirado de um vídeo que havia sido compartilhado anteriormente na delegacia em uma tentativa de identificá-la. Ela disse que sua privacidade foi violada mais uma vez. Em alguns casos, Kirk Bishop invadiu casas e gravou as pessoas fazendo sexo BBC News Penalidades para voyeurismo Lucy disse que também ficou chateada ao saber que a pena máxima para voyeurismo em Guernsey é de dois anos de prisão e multa. "Ele só pode pegar dois anos, independentemente do número de vítimas", disse Lucy. No Brasil, o voyeurismo também é crime. De acordo com o Código Penal, "produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado sem autorização dos participantes", pode levar a uma pena entre seis meses e um ano, além de multa. Mas se for praticado contra crianças ou adolescentes, como no caso dos filhos de Lucy, a pena prevê reclusão de 4 a 8 anos e multa. "Eu realmente achei que estava interpretando [a lei de crimes sexuais] errado", disse ela. "Ele vai cumprir seis semanas de prisão pelo que fez comigo." O Comitê de Assuntos Internos de Guernsey anunciou em novembro, em parte devido a este caso, que estava trabalhando em atualizações nas leis de crimes sexuais da ilha para endurecer as penas relacionadas ao voyeurismo. Em fevereiro, autoridades do governo de Guernsey disseram que estavam trabalhando para realizar um "debate em março ou abril". Uma carta de política sobre o assunto ainda não foi publicada. Lucy disse que, embora essa fosse uma medida positiva, ela estava irritada por não se aplicar ao seu caso. "Se você está mudando uma lei com base em um crime que alguém cometeu, certamente essa pessoa deveria ser punida de acordo com isso?", disse ela. Bishop deve ser sentenciado em 15 de maio. Lucy concluiu afirmando que uma das melhores coisas de se viver numa ilha era a sensação de segurança, algo que, segundo ela, havia perdido completamente.

Fim do Wayback Machine? Como a preservação da memória da internet está sobre pressão


Wayback Machine Reprodução Há 30 anos, o portal archive.org guarda a memória da internet. Sua plataforma Wayback Machine contém mais de um bilhão de sites arquivados e funciona como uma ferramenta imprescindível, que permite a jornalistas, pesquisadores, historiadores e juristas acessar conteúdos originais de páginas que foram alteradas ou até mesmo excluídas. No entanto, esse projeto fundamental da entidade criada em São Francisco, nos EUA, enfrenta uma crise existencial. E a última ameaça vem justamente de quem mais precisa do arquivo — os veículos de imprensa. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 Um número cada vez maior de empresas de comunicação vem negando o acesso do Internet Archive aos seus conteúdos. Segundo uma pesquisa da Nieman Foundation for Journalism, da Universidade de Harvard, pelo menos 241 portais de notícias de nove países já bloquearam o acesso da Wayback Machine. Entre eles estão o britânico The Guardian, o americano New York Times, o francês Le Monde e o USA Today, maior conglomerado jornalístico dos Estados Unidos. Veja os vídeos em alta do g1 Veja os vídeos que estão em alta no g1 LEIA TAMBÉM 'Pegou foto sem autorização', diz evangélica de 16 anos vítima de influencer que usou IA para sexualizar sua imagem em igreja Usar o celular enquanto carrega é perigoso? Veja em quais situações é preciso ter cuidado Abrindo mão de uma importante ferramenta O próprio USA Today publicou recentemente uma reportagem mostrando como a polícia de imigração americana, o ICE, havia ocultado informações na web sobre sua política de detenção. Para a apuração, o jornal utilizou conteúdos da Wayback Machine do archive.org, contradizendo a própria política da empresa, que agora bloqueia o acesso da plataforma a seus artigos. O motivo pelo qual os veículos de comunicação estão barrando o acesso à ferramenta que eles mesmos utilizam é simples. Os jornais temem que empresas de inteligência artificial, como OpenAI ou Google, acessem os conteúdos jornalísticos arquivados na plataforma para treinar seus modelos de linguagem — sem autorização e sem pagamento. "O problema é que os conteúdos do New York Times no Internet Archive são utilizados pelas empresas de IA, que infringem direitos autorais para concorrer diretamente conosco", declarou o porta-voz do NYT, Graham James. Milhares de consultas por segundo com robôs De fato, dados mostram que, no site archive.org, inúmeros robôs são usados para buscar conteúdos jornalísticos e utilizá-los no treinamento de modelos de IA — obtendo, assim, exatamente as informações que lhes são negadas. O diretor do Wayback Machine, Mark Graham, afirmou à revista Wired que algumas empresas chegaram a acessar os arquivos com dezenas de milhares de solicitações por segundo, a ponto de sobrecarregar temporariamente os servidores. Era algo que o archive.org não esperava. A organização sem fins lucrativos se apresenta como uma entidade comprometida com a internet aberta. "Exatamente como uma biblioteca clássica, oferecemos acesso gratuito a pesquisadores, historiadores, cientistas e pessoas com deficiência visual e ao público em geral. Nosso objetivo é possibilitar a todas as pessoas o acesso universal a todo o conhecimento", diz o lema da associação. Isso também exclui a possibilidade de bloquear robôs e rastreadores — o que levou às sanções impostas por grandes editoras e empresas de mídia. A Electronic Frontier Foundation (EFF), organização de direitos humanos especializada em questões digitais, compara a atitude dos veículos de imprensa a uma situação em que "um jornal proibisse bibliotecas de manter cópias de seu periódico". A história da internet pode se perder para sempre Desde então, mais de 100 jornalistas assinaram uma petição em apoio ao Internet Archive. Em carta aberta, eles afirmam: "Em um cenário de mídia digital em que artigos desaparecem devido à perda de links, fusões de empresas ou cortes de custos, os jornalistas dependem frequentemente da Wayback Machine do Internet Archive para recuperar páginas que, de outra forma, estariam perdidas. Sem esse trabalho contínuo de preservação da Internet, grande parte da história jornalística recente já teria se perdido." Mark Graham, do New York Times, afirmou também à Wired que está em conversas com as empresas de jornalismo para reaver o acesso. O desfecho ainda é incerto. "Não há dúvida de que o bloqueio crescente de grande parte da internet pública prejudica a capacidade da sociedade de compreender o que está acontecendo em nosso mundo", confessou Graham. Fragmentar a internet é inevitável? Getty Images Arquivo como infraestrutura pública Repórter especializado em mídia e fundador do socialmedia watchblog.de, Martin Fehrensen vê no archive.org o único registro funcional da web aberta. Caso a plataforma não consiga mais cumprir essa função, isso teria consequências graves, diz ele à DW. "Milhões de trechos da Wikipedia perderiam a referência; pesquisas sobre a responsabilidade das plataformas – ou seja, quais termos de uso vigoravam em cada momento, quais regras de moderação foram reformuladas e de que maneira – se tornariam significativamente mais difíceis; e as evidências digitais com valor probatório judicial seriam perdidas", explica, acrescentando que, especialmente para os veículos jornalístico, seria totalmente absurdo bloquear o arquivo. Segundo Fehrensen, há duas maneiras de se resolver esse conflito. "Precisamos de um diálogo com os editores, com uma separação técnica clara entre o arquivamento e o treinamento de IA, pois esse é o verdadeiro conflito, não o arquivo em si", explica o jornalista. A médio prazo, na opinião dele, deve ser criado um status jurídico especial para os arquivos da web. E, a longo prazo, o arquivamento da internet deve ser tratado como infraestrutura pública, não como um projeto isolado de uma ONG em São Francisco, acrescenta. "O fato de que, em 2026, ele ainda dependa de uma única organização é a verdadeira falha estrutural", conclui. Um conflito dramático – entre vários Não é a primeira vez que o Internet Archive luta para continuar existindo. Em setembro de 2024, um ataque hacker ao site resultou no roubo de 31 milhões de contas de usuário. Foi um duro golpe, mas a organização conseguiu se recuperar. No mesmo ano, o Archive perdeu um processo de direitos autorais em um tribunal de apelação dos EUA: as editoras Hachette, Penguin Random House, HarperCollins e Wiley entraram com uma ação contra o programa gratuito de empréstimo de e-books que o Archive havia lançado durante a pandemia de Covid-19, e obtiveram sucesso. Mais de 500 mil livros tiveram que ser retirados da plataforma. Mas o archive.org ainda enfrenta pedidos de indenização na casa dos milhões. Em comparação com essas derrotas, a ameaça atual representada pelos bloqueios da mídia é estruturalmente mais grave, pois não pode ser sanada por uma decisão judicial ou uma atualização. Ela é o resultado de inúmeras decisões corporativas que, em conjunto, minam a essência do Wayback Machine: a documentação completa da internet pública.

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