sexta-feira, 13 de março de 2026

Conexões secretas na fronteira e redes privadas: como iranianos desesperados mantêm contato com familiares no exterior


Iranianos têm buscado maneiras de contornar as restrições à internet e às ligações telefônicas impostas em tempos de guerra (foto de arquivo de 2025) BBC/NurPhoto / Getty Images Em algum ponto da fronteira entre o Irã e a Turquia, um homem vende um serviço especial que ajuda iranianos que vivem fora do país a manter contato com familiares dentro do Irã. O segredo dele envolve dois telefones: um conectado à rede telefônica iraniana e outro à turca. Isso é necessário porque as chamadas internacionais para o Irã estão bloqueadas. Clientes fora do país ligam para o telefone turco dele pelo WhatsApp, e ele então disca para os familiares deles usando o telefone iraniano. Ele mantém os dois aparelhos juntos para que pessoas desesperadas para ouvir seus familiares no Irã possam falar com eles. Por estar na fronteira, o homem consegue se conectar tanto à rede móvel turca quanto à iraniana. Esse é apenas um dos métodos usados por iranianos para contornar as restrições à internet e às comunicações impostas em tempos de guerra, mas o serviço é caro. A BBC News Persa apurou que, com taxas de transferência em dinheiro, uma ligação de quatro a cinco minutos custa cerca de £28 (aproximadamente R$ 180). Ainda assim, os clientes dizem que vale a pena pagar. 'Não dá pra viver sem VPN': como brasileiros na Rússia driblam restrições às redes sociais Veja os vídeos que estão em alta no g1 Às vezes, pessoas no Irã conseguem ligar para o exterior, mas a ligação raramente funciona na primeira tentativa e as chamadas quase sempre duram apenas dois ou três minutos antes de cair. Hamid (cujo nome, como o de outros nesta reportagem, foi alterado) vive em Teerã, capital do Irã, e tem procurado desesperadamente maneiras de manter contato com a esposa e outros parentes que estão no exterior. "Nos últimos dias, tentei de tudo apenas para conseguir me conectar", disse. "O custo não importava para mim, mesmo sendo um peso financeiro. Eu só queria que eles se sentissem um pouco mais tranquilos." Ele tem usado serviços de rede privada virtual (VPN), que permitem "enganar" as restrições impostas pelas autoridades iranianas à internet, possibilitando o envio de mensagens e chamadas para o exterior. "O sofrimento é enorme. O sofrimento de não saber, da ansiedade e da preocupação constante", disse. Aplicativos de VPN são uma das formas de contornar as restrições (foto de arquivo de 2025) BBC/NurPhoto / Getty Images Hamid diz que 1 gigabyte de dados para uma VPN pode custar em torno de £15 (cerca de R$ 130), um valor considerável em um país onde o salário mínimo mensal é de cerca de US$ 100 (em torno de R$ 650). "O preço das VPNs disparou e as conexões são extremamente instáveis", disse Hamid. Ele acrescentou que, se a conexão cair enquanto a VPN estiver em uso, os dados comprados são perdidos e não há reembolso. "Sempre que eu conseguia me conectar à internet, mesmo que por pouco tempo, eu mandava mensagem para todos e pedia que me enviassem os números de telefone de seus familiares para que eu pudesse verificar como estavam e depois enviar notícias de volta", contou Hamid. "Quando ligo para uma mãe e menciono o nome do filho que perguntou por ela, o som da risada e da alegria dela muda todo o meu mundo", explicou Hamid. Negar (nome alterado), que vive em Toronto, no Canadá, disse que sua família sabia o quanto ela havia ficado ansiosa com a segurança deles durante os protestos contra o governo em janeiro. "Desta vez, quando a internet foi cortada, eles começaram a me ligar diretamente para avisar que estavam bem", disse. Negar acrescentou que, embora as chamadas curtas ajudem, essa comunicação não é suficiente para tranquilizá-la. "A pior parte da história é que eles estão sob forte bombardeio e, ainda assim, me ligam dizendo: 'Estamos bem, não se preocupe conosco'. É isso que está me destruindo." Shadi (nome alterado) vive em Melbourne, na Austrália, mas a casa de seus pais fica em Teerã, em uma área que eles chamam de "ninho de vespas". O local fica perto do grande depósito de petróleo atingido em 7 de março, e outros pontos sensíveis, como o Ministério da Defesa, também estão nas proximidades. "Normalmente, antes de nos ligar, eles entram em contato com outros parentes e vizinhos ao redor para verificar se todos estão bem e reunir informações", disse Shadi. "Depois, nos repassam essas informações para que possamos compartilhá-las com o restante da família aqui." Ela acrescenta que o som de fortes explosões nas proximidades tem sido muito assustador e que seu pai deixou de sair para caminhar depois que a "chuva negra" (expressão informal usada para descrever precipitação contaminada por poluentes, que adquire coloração escura) caiu sobre ele após o ataque ao depósito de petróleo. Zahra (nome alterado) vive na Europa e está muito preocupada com o irmão no Irã, mas ele usa uma VPN para acessar o aplicativo de mensagens Telegram e manter contato. "Se ele fica offline por mais de meia hora ou uma hora, todo tipo de pensamento assustador começa a passar pela minha cabeça", disse. Ela ressaltou que, na maior parte do tempo, a sua família permanece em casa. Eles não vão ao trabalho ou, se vão, ficam apenas por um período muito curto. "O som de caças e explosões é aterrorizante", contou o irmão a ela. "Lá fora também há patrulhas por toda parte, paradas em cada cruzamento, olhando diretamente nos seus olhos. Se não gostam da sua aparência, eles param você." A necessidade de usar diferentes aplicativos e truques técnicos para contornar as restrições muitas vezes dificulta manter contato com parentes menos familiarizados com tecnologia. "Hoje em dia, a única maneira de me comunicar com a minha família é quando eles me ligam", disse Pooneh (nome alterado), que tem pouco mais de 30 anos e vive em Londres, no Reino Unido. "Eu não consigo ligar para eles. Até essa coisa simples cria uma sensação estranha, como se nada estivesse sob o meu controle." Ela disse que a irmã é a única pessoa com quem consegue manter contato. "Talvez porque ela se sinta mais confortável com tecnologia e encontre maneiras de fazer a ligação. Normalmente, também é ela quem me traz notícias sobre o resto da família." Como muitas outras pessoas, elas mantêm uma troca de informações em duas direções: quem está dentro do Irã transmite mensagens da família, e quem está no exterior dá atualizações sobre a guerra que não estão disponíveis no país por causa da censura do governo. "Muitas vezes ela liga apenas para receber notícias de mim", disse Pooneh. "Parece que cada uma de nós tem uma parte da história faltando, e precisamos juntá-las uma com a outra."

Um quinto dos adolescentes australianos ainda usa TikTok e Snapchat mesmo após proibição de rede social


Brasileiros contam como foi a proibição de redes sociais na Austrália Um quinto dos adolescentes australianos com menos de 16 anos ainda usa redes sociais dois meses depois que o país proibiu as plataformas de permitirem menores de idade, mostraram dados do setor, levantando questões sobre a eficácia de seus métodos de controle de idade. O número de jovens de 13 a 15 anos que usam o TikTok e o Snapchat, entre os aplicativos de mídia social mais populares entre os adolescentes australianos, caiu desde antes da proibição entrar em vigor em dezembro até fevereiro, mas ainda assim mais de 20% usavam os aplicativos, de acordo com um relatório da fabricante de software de controle parental Qustodio fornecido à Reuters. 'Vejo você em 4 anos': adolescentes na Austrália se despedem das redes antes de proibição 'Não sabia o quanto minha filha era viciada': brasileiros contam como foi a proibição de redes sociais na Austrália Adolescente com celular BBC/Getty Images Os dados estão entre os primeiros a mostrar os efeitos sobre o comportamento online dos jovens desde que a Austrália implementou a proibição, que está sendo copiada por governos de todo o mundo. O governo australiano e pelo menos dois estudos universitários estão monitorando o impacto da proibição, mas nenhum deles publicou dados ainda. "Entre as crianças cujos pais não bloquearam o acesso, um número significativo continua a usar plataformas restritas nos meses seguintes à proibição", disse Qustodio no relatório, que se baseou em dados coletados de famílias australianas do final de 2024 a fevereiro. Sob a proibição, as plataformas, incluindo Instagram, Facebook e Threads, da Meta, YouTube, TikTok e Snapchat, do Google, devem bloquear pessoas com menos de 16 anos ou enfrentar uma multa de até US$35 milhões. Um porta-voz do órgão regulador da internet, o eSafety Commissioner, disse que o escritório estava ciente dos relatos de que alguns menores de 16 anos permaneciam nas mídias sociais e estava "interagindo ativamente com as plataformas e seus provedores de garantia de idade... enquanto continuava a monitorar quaisquer falhas sistêmicas que pudessem representar uma violação da lei".

quinta-feira, 12 de março de 2026

iPhone 17e repete design, mas tem novos truques na manga; veja as primeiras impressões


iPhone 17e: primeiras impressões Igual à versão anterior, mas com alguns novos truques na manga. Esse é o novo iPhone 17e, que a Apple começa a vender nesta sexta-feira (13) no Brasil. O smartphone intermediário substitui o iPhone 16e na linha de produtos da companhia e tem a ambição de ser um “iPhone econômico”, para quem quer trocar de telefone sem gastar tanto quanto em um topo de linha da marca. O aparelho custava a partir de R$ 5.799 em março. Para comparação, o iPhone 17 saía por R$ 7.999. ✅Clique aqui para seguir o canal do Guia de Compras do g1 no WhatsApp O Guia de Compras teve acesso ao iPhone 17e e conta a seguir as primeiras impressões. iPhone 17e (à esquerda) e iPhone 16e (à direita): design igual, mesmo acabamento Henrique Martin/g1 Quem vê o iPhone 17e pela primeira vez pode achar que ele é igualzinho ao 16e. As dimensões são as mesmas: 146,7 mm de altura x 71,5 de largura x 7,8 mm de espessura. Só muda mesmo o peso: 170 gramas para o 17e, contra 167 gramas do 16e. Ambos têm opções de acabamento em branco e preto foscos, agora com uma versão em rosa para o iPhone 17e. Ele segue sendo o modelo de menor tela da Apple, com 6,1 polegadas. A câmera traseira de 48 megapixels, os 8 GB de RAM e a capacidade da bateria (4.005 mAh) continuam os mesmos nos dois aparelhos. Tela de 6,1 polegadas no iPhone 17e (esquerda) e 16e (direita) Henrique Martin/g1 Mas, com dois celulares praticamente iguais, o que muda? Por dentro, o iPhone 17e usa o mesmo processador do iPhone 17, um A19. É a mesma lógica que a Apple usou com o 16e, que tinha o mesmo chip do iPhone 16. A quantidade de armazenamento do modelo mais em conta também mudou. O 16e vinha em versões de 128, 256 e 512 GB. O 17e já começa em 256 GB e tem o mesmo valor cobrado pelo 16e de 128 GB no lançamento, no ano passado – R$ 5.799. Em março de 2026, o iPhone 16 já custava na faixa dos R$ 3.800 – o mesmo valor médio da Black Friday 2025. Outra novidade bem-vinda no iPhone 17e é a adoção do conector MagSafe na traseira do aparelho. Ele permite recarregar a bateria sem fios de forma rápida (potência de 15W) e conectar acessórios, como capas e carteiras, com o ímã traseiro. O iPhone 16e não tinha MagSafe, apenas carregamento sem fio lento (7,5W). Carteira presa ao iPhone 17e pelo ímã MagSafe Divulgação A Apple diz ainda que a estrutura do iPhone 17e é mais "dura na queda" na comparação com o 16e, com a adoção de um novo material (Ceramic Shield 2) três vezes mais resistente contra arranhões. A câmera de 48 megapixels segue a mesma nos dois aparelhos, mas com melhoria no sistema de fotos em modo retrato no 17e, que aprimora o desfoque do fundo. Veja abaixo algumas fotos feitas com o aparelho: iPhone 17e: amostras de fotos feitas com o celular Quem são os concorrentes do iPhone 17e? iPhone 17e visto de frente Henrique Martin/g1 O iPhone 17e entra na categoria dos celulares intermediários e não vai, necessariamente, “brigar” com o 16e. Quem comprou o modelo ano passado não deve trocar de celular agora, já que não deve ter grande mudança de desempenho de um modelo para outro. Ele concorre com modelos mais antigos, muitas vezes até usados, da Apple ainda disponíveis em lojas on-line, como os iPhones 11, 12, 13 e 14. No mundo dos celulares com sistema Android, seus rivais são aparelhos como o Galaxy S25 FE e o Moto Edge 70, modelos com configurações mais avançadas mais parecidas com os topo de linha das marcas, mas que não custam tão caro. Veja a seguir uma lista com o iPhone 17e e seus concorrentes. Os preços iam de R$ 2.800 a R$ 5.800 nas lojas da internet consultadas no meio de março. iPhone 17e iPhone 16e Samsung Galaxy S25 FE Moto Edge 70 Esta reportagem foi produzida com total independência editorial por nosso time de jornalistas e colaboradores especializados. Caso o leitor opte por adquirir algum produto a partir de links disponibilizados, a Globo poderá auferir receita por meio de parcerias comerciais. Esclarecemos que a Globo não possui qualquer controle ou responsabilidade acerca da eventual experiência de compra, mesmo que a partir dos links disponibilizados. Questionamentos ou reclamações em relação ao produto adquirido e/ou processo de compra, pagamento e entrega deverão ser direcionados diretamente ao lojista responsável. Como o celular consegue filmar e manter o horizonte estável?

Por que as pessoas estão abandonando os fones de ouvido sem fio?


Fones de ouvido Serenity Strull/Getty Images via BBC Quando a Apple eliminou a entrada de fones dos iPhones em 2016, eu entrei em modo de resistência. Não ia deixar uma gigante ditar meus hábitos de escuta, então comprei um Android e me mantive firme no cabo. Porém, meu celular deu seu último suspiro exatamente no mesmo mês em que o Google — um dos últimos resistentes — anunciou que também tiraria a entrada de fones de seus aparelhos. Parecia um sinal cósmico de derrota. Então voltei para o iPhone, joguei meus fones com fio na gaveta e me juntei às hordas do Bluetooth. Pode ser que eu tenha desistido cedo demais. Recentemente, um movimento discreto vem crescendo, baseado em uma verdade controversa: fones de ouvido com fio são melhores do que os de Bluetooth. As vendas dispararam nos últimos meses. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Talvez os consumidores tenham percebido que, muitas vezes, conseguem obter um som de melhor qualidade, e pelo mesmo preço, com um modelo com fio — mas esse não é um movimento apenas entre os audiófilos, aquelas pessoas muito exigentes com a qualidade do som. Os fones com fio viraram uma tendência cultural, um ressurgimento que alguns associam a uma reação maior contra a tecnologia. Seja por motivos práticos, políticos ou estéticos, uma coisa é clara: os fones com fio estão de volta. "Eu me converti", diz Aryn Grusin, assistente social de Portland, no Oregon, nos EUA, apaixonada por fones com fio. Há alguns meses, ela pegou emprestado o par de fones antigos do noivo e nunca mais voltou atrás. "Acho simplesmente reconfortante. Gosto de mostrar ao mundo que estou ouvindo alguma coisa." Grusin não está sozinha. Depois de cinco anos seguidos de queda, as compras de fones de ouvido com fio explodiram na segunda metade de 2025, segundo a empresa de análise Circana, e a receita com fones com fio cresceu 20% nas primeiras seis semanas de 2026. "Parece que muita gente está meio que se voltando contra a tecnologia porque ela está ficando avançada demais", diz Grusin. "Acho que existe um sentimento coletivo de: 'não gosto do rumo que isso está tomando', e estamos todos voltando para o último lugar onde nos sentíamos confortáveis." 'Está virando uma questão de classe social' A qualidade do som pode ser uma grande vantagem da vida com fio, diz Chris Thomas, editor especial do site de avaliações de fones SoundGuys. "Essa é a tecla na qual venho batendo há muitos anos", afirma. Segundo Thomas, os fones sem fio melhoraram muito, mas os melhores geralmente vêm de marcas de nicho voltadas para audiófilos. Quando se trata de produtos mais populares, daqueles que você encontra em uma loja de eletrônicos, ele diz que você consegue um som melhor pelo mesmo valor se optar por uma boa opção com fio. Além disso, mesmo os melhores fones Bluetooth podem não entregar seu desempenho máximo por causa de conexões ruins ou problemas de compatibilidade com o seu dispositivo. "Com um fio, você simplesmente conecta e funciona", diz Thomas. Mas a qualidade sonora não basta para explicar a tendência. De alguma forma, o Bluetooth parece ter se tornado profundamente pouco atraente. Não acredite só em mim. Pergunte à atriz e diretora Zoë Kravitz. "Bluetooth não funciona", disse Kravitz em uma entrevista recente — e não é só com fones de ouvido, mas com conexões Bluetooth em geral. "Está estragando momentos importantes. Imagine quantas vezes você está com alguém em um encontro, tentando criar um clima, e então precisa 'esquecer a rede'. Em um encontro!" Na verdade, fones de ouvido com fio viraram agora um acessório de moda indispensável em alguns círculos. Há até uma conta popular no Instagram sobre o assunto chamada Wired It Girls (algo como "as it girls dos fones com fio"), dedicada a mulheres que parecem chiques e despreocupadas com os cabos pendurados nas orelhas — de pessoas comuns a celebridades como as cantoras Ariana Grande e Charli XCX. Os fones de ouvido com fio se tornaram tão onipresentes entre ricos e famosos que alguns já veem esses emaranhados de plástico e metal como um símbolo cultural. Um usuário de redes sociais publicou um tuíte viral com fotos dos atores Robert Pattinson e Lily‑Rose Depp usando fones com fio. "Está virando uma questão de classe", escreveu. "Usar fones sem fio 24 horas por dia me diz que você não é dono de terras." Claro, há algo libertador em ouvir música sem estar preso a um cabo. Mas as baterias acabam justamente no pior momento. Os minúsculos fones do tipo earbuds (intra-auriculares) se perdem. Os dispositivos não emparelham. "As pessoas dizem que é mais fácil, mas nunca parece mais fácil para mim", diz Ailene Doloboff, uma editora de diálogos na indústria cinematográfica em Los Angeles, nos EUA. "Com Bluetooth sempre tem uma etapa a mais." Os fones de ouvido com fio entram para uma lista de tecnologias aparentemente obsoletas que voltaram com força nos últimos anos, justamente quando mergulhamos na próxima era digital. Pessoas jovens e mais velhas estão adotando produtos retrô como DVDs, fitas cassete, antigas TVs de tubo e até máquinas de escrever. Em um show recente, vi um cara na plateia gravando o espetáculo não com um celular, mas com uma câmera de filme 16 mm dos anos 1970. "Não sei por quê, mas todos nós, coletivamente, tivemos essa virada. Acho que a presença da IA está deixando as pessoas mais inquietas", diz Grusin. "O que é irônico, de certa forma. Fico desconfortável com a tecnologia e então quero usar outra tecnologia. Mas talvez os fones com fio sejam o mais perto do analógico que conseguimos chegar." O problema dos adaptadores Se você optar por usar fones com fio, a questão passa a ser como conectá-los. Mas hoje já é possível comprar fones com fio que vêm com conexão USB ou Lightning integrada. Ou então usar fones com o tradicional conector de 3,5 mm por meio de um adaptador para a porta de carregamento. A Apple removeu a entrada de fones de ouvido de seus telefones em 2016, com o lançamento do iPhone 7, o que muitos viram como o fim da escuta com fio. Mas nem mesmo a Apple abandonou totalmente os fones com fio. "Ah, nós ainda vendemos esses", disse o diretor-executivo da empresa, Tim Cook — o homem que acabou com a entrada de fones nos celulares — à minha colega da BBC Zoe Kleinman há alguns anos. "As pessoas ainda compram." Fui a uma loja da Apple no caminho de casa depois do trabalho para comprar um par barato com fio e conexão USB. Um funcionário me disse que tem vendido mais fones com fio do que nunca. Passei alguns dias usando os fios. Gostei da sensação. Estar ligado ao meu dispositivo me fazia sentir um pouco mais presente ao ouvir, e eles também ficaram mais confortáveis nos meus ouvidos do que os fones mais pesados do meu conjunto Bluetooth. Mas nosso relacionamento foi curto. Nunca perdi meu par de fones Bluetooth. O estojo dos meus AirPods é volumoso o suficiente para que eu sempre perceba quando não está comigo. Já os fones com fio, leves como uma pluma, não. Eles escaparam do meu bolso em algum lugar nas ruas do meu bairro. Espero que tenham encontrado um lar mais amoroso. Determinado, pensei que um upgrade talvez me tornasse mais cuidadoso. Então, visitei uma loja especializada em fones de ouvido em Nova York chamada Audio 46, escondida em uma estreita fachada comercial. Delaney Czernikowski, que faz avaliações de fones para o site da empresa, me recebeu no balcão. "Muita gente está aderindo à tendência. Eles chegam dizendo: 'Acho que fones com fio são melhores, quero experimentar'", diz Czernikowski. "Mas às vezes ficam preocupados em perder a conveniência do Bluetooth. Eu digo que o Bluetooth pode ser muito bom — você não precisa abrir mão disso." Czernikowski me deixou experimentar alguns dos fones Bluetooth mais sofisticados da loja, com uma qualidade de som incrível — e preços igualmente impressionantes. Eram suficientes para fazer até os audiófilos mais devotos babarem. "Mas, para ser justa, os fones com fio — muitos deles — são melhores e há muito mais opções para escolher", diz ela. "E eles têm qualidades superiores que não ficam limitadas pela necessidade de ter tecnologia Bluetooth dentro deles." Eu pretendia comprar algo barato. Com cerca de um minuto de conversa, porém, Czernikowski me convenceu a experimentar um par ao preço de US$ 130 (R$ 675) de uma marca chinesa especializada, com um cabo grosso, bonito e trançado. "Não faça concessões", diz ela. Eles soam excelentes pelo preço, mas a BBC não recomenda produtos como parte do seu compromisso com a imparcialidade. Então, você terá que fazer sua própria pesquisa. Entreguei meu cartão de crédito, comprei um maldito adaptador USB para usar com os fones e saí para a rua para plugá-los.

Google Maps vai ganhar assistente com IA para responder perguntas sobre lugares e rotas


Ask Maps, nova ferramente interativa do Google Maps Divulgação/Google O Google Maps vai ganhar uma nova versão com recursos de inteligência artificial integrados ao Gemini (IA do Google). Segundo a big tech, a atualização pretende tornar o uso do aplicativo mais interativo, permitindo que usuários façam perguntas por voz sobre lugares e rotas. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (7) e a novidade será lançada inicialmente nos Estados Unidos e na Índia, em celulares Android e iOS. A principal novidade é o recurso chamado Ask Maps, que funciona como um assistente virtual dentro do aplicativo. Com ele, o usuário poderá fazer perguntas e receber sugestões diretamente no mapa. De acordo com a empresa, seria possível perguntar, por exemplo, onde carregar o celular nas proximidades ou se existe uma quadra pública de tênis com iluminação para jogar à noite. O sistema então indicaria opções próximas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 WhatsApp lança recurso para pais limitarem quem pode falar com seus filhos O Google afirma que o recurso usa informações do Maps sobre mais de 300 milhões de lugares, além de avaliações feitas por cerca de 500 milhões de usuários, para gerar recomendações. A empresa também diz que a ferramenta poderá ajudar no planejamento de viagens. Ao informar um roteiro com vários destinos, o aplicativo poderia sugerir paradas no caminho, indicar horários de chegada e mostrar dicas deixadas por outros usuários. Outra promessa é uma visualização mais detalhada das rotas. Segundo o Google, o mapa passará a mostrar representações em 3D de edifícios, viadutos e do terreno, além de destacar elementos da via, como faixas, semáforos e placas de parada. A companhia afirma que essa análise espacial seria feita pelos modelos do Gemini a partir de imagens recentes do mundo real, obtidas por serviços como o Street View e fotografias aéreas. Ask Maps, novo recurso do Google Maps Divulgação/Google Veja mais: 'Caso ela diga não': como redes sociais expõem usuários a 'níveis chocantes de misoginia', segundo pesquisa global Trend de influenciadores sobre segurança de Dubai gera críticas nas redes

Stone demite mais de 300 funcionários e sindicato fala em 'demissão em massa'


Stone Divulgação/Reprodução A Stone, fintech de pagamentos e serviços financeiros digitais, demitiu mais de 300 trabalhadores na última terça-feira (10). O número exato de desligados não foi confirmado, mas corresponde a cerca de 3% do quadro total, estimado entre 11 mil e 12 mil funcionários. Em nota, a Stone afirmou que os desligamentos fazem parte de “um ajuste pontual em sua estrutura como parte do processo contínuo de simplificação e ganho de eficiência”. A empresa também afirmou que “a operação segue normalmente, sem impacto para clientes ou parceiros”. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 O Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo (Sindpd-SP) afirmou que os desligamentos configuram uma “demissão em massa” e repudiou a conduta da companhia. As dispensas ocorreram durante a negociação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) da categoria, o que levou o sindicato a acusar a empresa de prática antissindical. Para a entidade, os desligamentos “representam um desrespeito ao processo de negociação coletiva em curso”. Segundo o sindicato, a medida surpreendeu trabalhadores e representantes da categoria, já que o período deveria ser dedicado às negociações sobre condições de trabalho e direitos. “Demissões coletivas nesse contexto fragilizam o ambiente de negociação e pressionam indevidamente os trabalhadores, comprometendo o equilíbrio necessário nas tratativas”, afirmou o Sindpd-SP em nota. Ainda segundo a entidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu que demissões em massa devem ser precedidas de negociação com o sindicato da categoria. Para o Sindpd-SP, ao realizar os cortes durante o processo de negociação coletiva, a empresa teria desrespeitado esse entendimento. Diante do caso, o Sindpd-SP informou que pretende adotar medidas na Justiça do Trabalho, incluindo o questionamento das demissões e um pedido de reintegração dos trabalhadores dispensados. Antes dos desligamentos, a empresa havia reportado lucro trimestral de R$ 707 milhões, referente ao período encerrado em dezembro, alta de 12% em relação ao mesmo trimestre de 2024. Itaú demite funcionários após avaliar produtividade no home office

quarta-feira, 11 de março de 2026

O que são os 'cristais de memória' que desafiam leis da física e prometem solucionar o problema do armazenamento de dados


Os centros de dados consomem quantidades massivas de eletricidade, água e materiais, um dilema que vem impulsionando soluções inovadoras SPhotonix via BBC Durante uma visita ao Japão em 1999, o pesquisador Peter Kazansky encontrou um fenômeno físico misterioso. Agora, ele acredita que esta seja a chave para o futuro do armazenamento de dados. No laboratório de optoeletrônica da Universidade de Kyoto, os cientistas testavam como escrever em vidro usando lasers ultrarrápidos de femtossegundos. Eles emitem um pulso de luz a cada quadrilionésimo de segundo. Mas eles observaram algo incomum na forma em que a luz trafegava através do vidro tratado com laser. A dispersão de Rayleigh é um efeito bem conhecido. Ela descreve como pequenas partículas refletem a luz branca em todas as direções — o que explica, entre outras coisas, por que o céu parece ser azul. Mas, neste caso, a luz não se refletia conforme o esperado. "Foi difícil explicar", afirma Kazansky, professor de optoeletrônica da Universidade de Southampton, no Reino Unido. Ele trabalhava em colaboração com os pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão. "Nós observamos a luz se dispersar de uma forma que parecia desafiar as leis da física." Veja os vídeos que estão em alta no g1 A desconcertante observação acabou provocando "um autêntico momento Eureka", segundo Kazansky. Os pesquisadores descobriram nanoestruturas ocultas dentro do vidro de sílica, criadas por "microexplosões" geradas pelos lasers de femtossegundos. Imagine que você sustente um grosso pedaço de cristal contra a luz e observe como a luz é refletida em muitas direções. Com a técnica do laser, os pesquisadores de Kyoto criaram acidentalmente pequenos orifícios que tinham esta mesma propriedade. Cerca de mil vezes menores que a espessura de um cabelo humano, esses "redemoinhos" de luz são tão minúsculos que acabam sendo imperceptíveis para o olho humano. Mas logo ficou claro para os cientistas que seu potencial era transformador. "Esta foi a primeira prova de que podemos usar a luz para imprimir padrões complexos dentro de materiais transparentes, em escala menor que o comprimento de onda da luz", explica Kazansky. Agora, 27 anos depois, espera-se que aquela descoberta possa ajudar a resolver um dos problemas mais graves da nossa era da informação: o armazenamento massivo de dados. O nosso problema com dados Na era da internet, da inteligência artificial, das casas inteligentes e do capitalismo de vigilância, existe algo que simplesmente não paramos de produzir: dados. A empresa de análises IDC prevê que, até 2028, geraremos coletivamente 394 trilhões de zettabytes de informações todos os anos (um zettabyte equivale a um trilhão de gigabytes). Toda vez que fazemos qualquer coisa na internet, como assistir a um vídeo no YouTube, enviar um e-mail ou fazer uma pergunta a um chatbot de IA, cadeias de pontos de dados saem em disparada rumo ao ciberespaço. A ideia de que os dados "pesam pouco" é enganosa. Nós imaginamos as informações viajando de forma etérea por cabos submarinos ou flutuando suavemente "na nuvem". Mas, na verdade, elas exigem enormes recursos físicos, cuja demanda está se tornando insaciável. Os centros de dados consomem quantidades massivas de eletricidade, água e materiais. E seu crescimento exponencial nos obriga a buscar alternativas radicais. Data centers de IA podem consumir energia equivalente à de milhões de casas Este dilema vem impulsionando soluções inovadoras. E uma delas é a proposta de Kazansky de gravar dados por meio de lasers. Outras opções, como a armazenagem de informações em DNA, também estão sendo exploradas por cientistas e empresas como a Microsoft. Os dados são processados e alojados em centros de dados — estruturas gigantescas, quase alienígenas, repletas de filas de servidores de mais de dois metros de altura, que piscam sem intervalos. Essas caixas vibrantes de hardware e cabos devoram energia, tanto para alimentar sua capacidade de computação quanto para os enormes sistemas de refrigeração necessários para evitar que elas se incendeiem. Aliás, um centro de dados não é um lugar agradável para se trabalhar. Quente e ensurdecedor, ele só é adequado para pessoas que conseguem "suportar muitas dores", segundo uma pesquisa da revista americana The New Yorker em 2025. Primeiros data centers de IA no Brasil podem consumir mesma energia de 16 milhões de casas Satélites gigantes e superchips: como serão os data centers no espaço? A Agência Internacional de Energia prevê que o consumo de eletricidade dos centros de dados duplicará até 2030 Getty Images via BBC Em escala global, os centros de dados representam cerca de 1,5% da demanda mundial de eletricidade. Projeções indicam que seu consumo irá duplicar até 2030, quando também poderão gerar 2,5 bilhões de toneladas de emissões de CO₂. Este número equivale a cerca de 40% de todas as emissões anuais dos Estados Unidos. A recente expansão da IA generativa agravou a situação. Ela aumentou drasticamente a demanda por sistemas de computação de alto rendimento, que consomem quantidades colossais de energia e emitem nuvens intensas de calor. A maior parte da energia consumida pelos centros de dados é gasta com "dados quentes": informações que devem estar disponíveis instantaneamente para acesso rápido e atualizações frequentes. Exemplos são transferências de dinheiro entre contas bancárias e documentos online editados regularmente. Mas a maioria dos dados do mundo não é deste tipo. Até cerca de 80%, na verdade, são "dados frios": informações de que ninguém necessita imediatamente e que, quando são necessárias, as pessoas estão dispostas a esperar minutos ou até dias para obtê-las. Eles incluem dados de conformidade, como registros financeiros ou processos de auditoria, que bancos e outras empresas devem conservar indefinidamente. Também entram nesta categoria as cópias de segurança dos e-mails ou fotos antigas, além de dados de arquivo. Mas a armazenagem destes dados apresenta problemas. Crise da memória RAM pode deixar celulares, notebooks e até carros mais caros no Brasil A maior parte deles é atualmente armazenada em discos rígidos, dentro de centros de dados. Eles devem permanecer ligados para que as informações possam ser recuperadas, o que exige energia e sistemas de refrigeração. Outra solução cada vez mais popular é a fita magnética. Ela é armazenada nas próprias instalações do centro de dados ou em bibliotecas de fitas especializadas. As fitas devem ser mantidas sob temperaturas de 16 a 25 °C, o que também implica consumo de energia para manter suas condições ideais. Além disso, elas precisam ser substituídas a cada 10 a 20 anos devido à sua degradação. Neste momento, a fita antiga é descartada como resíduo. O enorme aumento da produção de dados impulsionou forte demanda por fitas magnéticas nos últimos anos. 'Cristais de memória' Tudo isso faz com que a busca de soluções alternativas seja cada vez mais urgente. E Kazansky está adotando um enfoque inovador sobre este problema. Nos anos que se seguiram àquela primeira revelação na Universidade de Kyoto, ele descobriu que os redemoinhos com perfurações minúsculas gravadas no vidro podem ser lidos de forma muito similar aos dados transmitidos por fibra óptica. O professor explica que este método codifica dados em cinco dimensões, empregando a diferença de orientação e a intensidade da luz, combinadas com a localização de diferentes "voxels" (pixels tridimensionais individuais com coordenadas x, y e z). "Podemos empregar estas propriedades da luz para armazenar dados em cinco dimensões, em vez das três habituais", explica Kazansky, "o que é fundamental para atingirmos a alta densidade necessária para o armazenamento 'eterno'." As informações são lidas por meio de um microscópio óptico especializado, equipado com uma câmera capaz de detectar a intensidade e a polarização da luz. "Como as nanoestruturas modificam a forma em que a luz viaja através delas, usamos óptica especial para 'ver' essas mudanças de polarização, que são novamente decodificadas em dados digitais", segundo ele. Os "cristais de memória" de Kazansky precisam de energia apenas para o processo de escrita dos dados. Mas não é necessário ter energia adicional para sua manutenção e o processo de leitura também não apresenta consumo intensivo. Eles podem reter uma quantidade vertiginosa de dados em uma área muito pequena. Teoricamente, até 360 terabytes (TB) — equivalentes a 36 mil GB — cabem um disco de vidro de cinco polegadas (12,7 cm). Kazansky afirma ainda que eles podem durar essencialmente para sempre. Os discos são feitos de vidro de sílica fundida, conhecido pela sua durabilidade e estabilidade térmica. A única precaução é mantê-los dentro de um recipiente resistente, pois, por serem feitos de vidro, eles continuam sendo susceptíveis às tradicionais quebras. Cristal de vidro da SPhotonix, mostrando imagens digitais de uma pintura da caverna de Chauvet, na França, e uma imagem gerada por IA de uma alunissagem, foi lançado em órbita em junho de 2025 SPhotonix via BBC Em conjunto com seu filho, Kazansky fundou em 2024 uma empresa chamada SPhotonix, para comercializar sua ideia. A companhia completou recentemente uma rodada de financiamento de US$ 4,5 milhões (cerca de R$ 23,2 milhões). O professor afirma que a SPhotonix já está em contato com empresas de tecnologia para estrear alguns dos seus protótipos em centros de dados durante os próximos dois anos. Mas, por enquanto, ele destaca que o objetivo continua sendo "aperfeiçoar a tecnologia para garantir que ela seja suficientemente robusta" para estes usos. Atualmente, a empresa pode atingir velocidade de leitura de cerca de 30 MB por segundo. Mas ela espera aumentar a velocidade de leitura e escrita para 500 MB por segundo nos próximos três a cinco anos, segundo Kazansky. Em termos de comparação, as soluções mais recentes de armazenamento em fita magnética oferecem até 400 MB por segundo. "Nossa meta é fazer com que recuperar os dados... seja tão fácil quanto usar um disco rígido moderno", afirma ele. Mas nem todos acreditam que os cristais de memória representem o futuro imediato do armazenamento de dados. Para o professor de ciência da computação Srinivasan Keshav, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, um dos problemas é que a tecnologia não é "compatível com a infraestrutura existente", o que gera "enormes barreiras para sua adoção". Kazansky não é o único que estuda como enfrentar o enorme acúmulo de dados do século 21. Ele pode ter encontrado respostas em grãos de areia, mas outros recorreram ao substrato granular de toda a vida orgânica. Dados em DNA O físico soviético Mikhail Samoilovich Neiman (1905-1975) foi o primeiro a propor a ideia de usar o DNA como meio de armazenamento, em 1964. Demonstrações realizadas desde a década de 1980 confirmaram sua viabilidade. Seus defensores afirmam que o DNA oferece uma solução extraordinariamente eficiente e duradoura. Teoricamente, um único grama de DNA poderia armazenar até 215 petabytes (PB), ou 215 milhões de GB de dados, por milhares de anos. E transformar bytes em bases nitrogenadas é surpreendentemente simples. "Você pega seus dados digitais e os atribui aos componentes básicos do DNA", explica o professor de gestão de dados Thomas Heinis, do Imperial College de Londres. Primeiramente, as quatro letras das bases de DNA (A, T, C e G) são convertidas em 01, 00, 11 e 10. "Depois, você sintetiza uma molécula (a representação física real desses dados) e a armazena pelo tempo que quiser", afirma o professor. A frase favorita entre os pesquisadores do armazenamento de dados em DNA é que "você poderia guardar todos os dados do mundo em uma colherada", comenta Heinis. Mas ele acrescenta que, na prática, seria muito difícil localizar a informação desejada dentro daquela massa indiferenciada. O fundamental é que as necessidades de armazenamento não exigem uso intensivo de energia. "Ele é eficiente do ponto de vista energético, pois, se você guardar em local adequado, não necessita de refrigeração", segundo o professor. Estão começando a surgir startups especializadas em armazenamento em DNA. E, nos últimos anos, houve avanços na redução do custo de "leitura" do DNA, segundo Heinis. Mas o custo total ainda é um obstáculo. "Continua caro demais", afirma ele, especialmente em relação à síntese do DNA. "Na parte da 'escrita', ainda não observamos grandes avanços, de forma que isso realmente precisa ocorrer", segundo Heinis. "Quando for suficientemente barato, tudo o mais irá se encaixar." Heinis descreve os cristais de memória de Kazansky como um "concorrente direto do armazenamento em DNA", mas o DNA poderia ser vantajoso porque "sempre poderemos ler DNA", devido às suas amplas aplicações médicas. "Com outras tecnologias, a questão é por quanto tempo existirá o dispositivo de leitura." Heinis destaca que, atualmente, é cada vez mais difícil ler meios de gravação como os disquetes, que surgiram nos anos 1970, mas ficaram praticamente obsoletos no início do século 21. "Existem empresas que oferecem armazenamento de dados por mais de 100 anos. Mas quais delas continuarão existindo daqui a um século?", questiona ele. O DNA pode armazenar enorme quantidade de dados e suas necessidades de conservação não consomem muita energia Getty Images via BBC Entre as gigantes da tecnologia, a Microsoft é quem demonstrou mais interesse em experimentar novos tipos de armazenamento de dados. Em 2016, a empresa anunciou ter armazenado 200 MB de dados em DNA, incluindo um banco de sementes do Silo Global de Sementes de Svalbard e a Declaração Universal dos Direitos Humanos em mais de 100 idiomas. Em 2020, a Microsoft e outras empresas fundaram a Aliança de Armazenamento de Dados em DNA. "A demanda por armazenamento de dados na nuvem a longo prazo atinge níveis sem precedentes e estamos chegando ao limite do possível com as tecnologias atuais", declarou à BBC um porta-voz da Microsoft. A Microsoft também patrocinou o grupo de pesquisa de Kazansky na Universidade de Southampton, como parte do seu Projeto Sílica, entre 2017 e 2019. "Juntos, demonstramos o princípio fundamental; depois disso, eles continuaram desenvolvendo a tecnologia de forma independente", segundo Kazansky. Equipamentos de pesquisa para a criação de cristais de vidro desenvolvidos pela Microsoft Microsoft via BBC Em fevereiro de 2026, a Microsoft publicou um artigo na revista Nature, detalhando um novo avanço neste campo. A empresa conseguiu armazenar dados em vidro de borossilicato, o mesmo utilizado em utensílios de cozinha e portas de fornos, além do vidro padrão de sílica fundida. O vidro de borossilicato é muito mais barato, o que faz com que a ideia seja economicamente mais viável. E também é muito durável; a empresa afirma que estes dados poderiam ser armazenados por até 10 mil anos. A Microsoft informou à BBC que, embora seus testes conceituais tenham demonstrado resultados promissores, a empresa ainda não comercializa esta linha de pesquisa. Repensar a computação Solucionar o problema do armazenamento de dados a longo prazo é apenas uma parte do desafio representado pelos centros de dados e seu enorme consumo de energia. A sílica e o DNA são "muito atraentes do ponto de vista da sustentabilidade", reconhece a professora Tania Malik, da Faculdade de Computação e Cibersegurança da Universidade Tecnológica de Dublin, na Irlanda. "Mas é pouco provável que estas tecnologias substituam o armazenamento convencional para a informática cotidiana ou as cargas de trabalho de IA em um futuro próximo", alerta ela. Malik destaca que existem formas mais práticas de abordar, em curto prazo, o problema do consumo de energia associado aos "dados quentes". "Uma questão importante é melhorar a eficiência da infraestrutura, por exemplo, com processadores com uso mais eficiente de energia e técnicas avançadas de refrigeração, como a refrigeração líquida ou por ar externo", explica ela. Paralelamente, a professora destaca que existe um "reconhecimento cada vez maior de que a eficiência também deve ser abordada em nível de software e das cargas de trabalho, não apenas em nível de infraestrutura". Malik afirma que, "na informática de alto rendimento e na computação em nuvem, o rendimento tem sido tradicionalmente a métrica dominante, mas é preciso considerar a eficiência energética com a mesma importância". Para ela, "isso significa projetar algoritmos e aplicativos com consciência do consumo de energia". A professora destaca ainda que isso também implica o uso da potência adequada de computação para cada tarefa. Afinal, "nem todas as tarefas necessitam do maior modelo de IA possível, nem do tempo de execução mais rápido". Mas, frente ao acúmulo exponencial de dados, é possível que venha a ser necessária uma reorganização mais radical, segundo Malik. Será que realmente precisamos de todos os dados que produzimos? Cada vez mais, parte da solução consiste em "termos mais propósito em relação ao que decidimos conservar", conclui a professora. Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Technology.

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