sábado, 14 de março de 2026

Ela passava 16 horas no Instagram. Agora, um júri vai decidir se a Meta e o Google têm culpa nisso


Pais que afirmam que as redes sociais levaram seus filhos à morte acompanham o julgamento da Meta e do Google em Los Angeles Ethan Swope/Getty Images/AFP Kaley ficava no Instagram até pegar no sono. Ela acordava no meio da noite para conferir as notificações. Abria o aplicativo assim que acordava. Um dia, passou 16 horas nessa rede social. "Parei de interagir com minha família porque passava todo o meu tempo nas redes sociais", relatou Kaley a um júri em Los Angeles, nos EUA, durante um processo histórico contra a Meta e o Google, duas das maiores empresas do mundo. O TikTok e o Snapchat, que também foram citados no processo original, fizeram um acordo extrajudicial. Conhecida apenas por seu primeiro nome ou pelas iniciais KGM, para proteger sua privacidade, a história de Kaley se tornou o caso exemplar para mais de 2 mil processos semelhantes que buscam responsabilizar as empresas de redes sociais pelos supostos danos à saúde mental de seus usuários mais jovens. Esse é o primeiro julgamento do tipo, e ele é acompanhado de perto por especialistas jurídicos e pais que acreditam que seus filhos foram prejudicados, até mesmo levados ao suicídio, por causa das redes sociais. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Lori Schott passou vários dias de olho no julgamento em Los Angeles, apesar de não ter participado do processo. Sua filha Annalee tirou a própria vida aos 18 anos, uma tragédia que Schott atribui à forma como o Instagram a expôs a conteúdos psicologicamente prejudiciais, apesar de a empresa supostamente saber o que essas postagens poderiam causar aos jovens. "Eles esconderam as evidências que tinham. Sabiam que era viciante. Nos deram uma falsa sensação de segurança", disse Schott, descrevendo à BBC o que aprendeu com o julgamento. "A equipe de relações públicas deles parecia apenas tentar nos convencer de que o mundo era um mar de rosas." Alto risco O cerne desse caso reside em saber se Kaley era viciada em redes sociais — e se as empresas de redes sociais projetaram as plataformas justamente para serem viciantes. Caso isso se confirme, o júri precisará decidir o que as empresas devem a jovens como Kaley, que podem ter sido prejudicadas por causa disso. O que está em jogo neste julgamento, para a Meta, o Google e outras plataformas de redes sociais, é muito importante. A maioria das questões legais do caso, principalmente a de que as plataformas de redes sociais são viciantes para jovens usuários e foram projetadas intencionalmente para serem assim, são "completamente inéditas", como afirmou a juíza Carolyn Kuhl diversas vezes ao longo do julgamento. O resultado pode ser tão potencialmente controverso que o próprio Mark Zuckerberg, bilionário cofundador e CEO da Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, compareceu pessoalmente para defender as suas plataformas. Foi a primeira vez que ele prestou um depoimento do tipo diante de um tribunal, apesar de sua empresa ter sido processada centenas de vezes no passado. Se o júri decidir a favor de Kaley, isso abalaria décadas de precedentes legais e culturais que trataram as plataformas como meros repositórios da natureza humana. Isso também abriria caminho para possíveis acordos históricos a serem pagos por empresas como a Meta. Milhares de outros casos semelhantes ao de Kaley, que atualmente tramitam no sistema judicial dos EUA, serão inevitavelmente influenciados pelo resultado deste julgamento inédito. Mesmo que o júri de Los Angeles não considere a Meta ou o Google culpados no caso de Kaley, a pressão pública e política contra as grandes empresas de tecnologia tem aumentado nos últimos anos. Essas empresas, em geral, não têm responsabilidade legal em relação aos seus usuários, mas uma onda de adolescentes diagnosticados com sérios problemas de saúde mental e um aumento nos episódios de suicídios entre crianças levaram pais e governos a começar a proibir o uso de mídias sociais para os mais jovens. Eles dizem que as plataformas expõem as crianças a tudo, desde padrões de beleza inatingíveis até predadores sexuais. Aaron Ping também tem acompanhado o julgamento de perto. Seu filho, Avery, tirou a própria vida aos 16 anos. Ele descreveu à BBC a história de um menino que passou de um "companheiro de aventuras" a alguém com quem frequentemente brigava por causa do uso excessivo do YouTube. "Elaboramos um acordo sobre o tempo de tela com os orientadores da escola, e definimos o que ele precisava fazer para obter a quantidade de tempo de tela permitida", disse Ping. A Meta e o YouTube não responderam a um pedido da BBC por um posicionamento a respeito das experiências de Schott e Ping. Kaley explicou no tribunal que começou a usar o YouTube aos seis anos. Aos nove, ela tinha uma conta no Instagram. A Meta afirma proibir o acesso de usuários menores de 13 anos a qualquer uma de suas plataformas, enquanto o YouTube oferece versões diferentes de sua plataforma para crianças, como o YouTube Kids. Kaley logo criou dezenas de contas em ambas as plataformas, numa tentativa de gerar curtidas e interações com o conteúdo que publicava — selfies no Instagram e vídeos cantando no YouTube. Ela queria se sentir querida e valorizada. Quando não publicava o próprio conteúdo, ela passava horas no Instagram e no YouTube consumindo vídeos e fotos de outras pessoas. Ela começou a sair menos de casa e a ter dificuldade para interagir com outras pessoas presencialmente. Quando tinha cerca de 10 anos, Kaley se lembra de ter os primeiros sentimentos de ansiedade e depressão, transtornos que seriam diagnosticados anos depois por um profissional da saúde. Ela também começou a ficar obcecada com a aparência física e passou a usar filtros do Instagram que alteravam o rosto e o corpo, em busca de um nariz menor, olhos maiores, maquiagem... Desde então, Kaley foi diagnosticada com dismorfia corporal, uma condição em que as pessoas se preocupam excessivamente com a aparência física e não se enxergam como os outros as veem. Questionada por seu advogado, Mark Lanier, se ela havia sofrido com esses sentimentos antes de estar nas redes sociais, Kaley relatou que "não, não sofria". Pais que afirmam que as redes sociais levaram seus filhos à morte acompanham o julgamento da Meta e do Google em Los Angeles Daniel Cole/Reuters Uso problemático ou dependência? A Meta defende que os problemas de saúde mental de Kaley decorrem de sua vida pessoal e criação, e não podem ser atribuídos ao uso do Instagram. Adam Mosseri, chefe do Instagram, testemunhou no tribunal que mesmo 16 horas de uso da rede social não pareceram a ele um vício ou uma dependência. Em vez disso, Mosseri referiu-se a alguém que passasse quase um dia inteiro nas redes sociais como algo "problemático". Quando Mark Zuckerberg testemunhou, após ser escoltado para o tribunal cercado por quatro seguranças pessoais, ele repetiu várias vezes que sua empresa sempre teve uma política que proibia usuários menores de 13 anos. Questionado sobre vários documentos internos da empresa fornecidos como parte do processo, nos quais executivos da Meta discutiam os milhões de crianças que usam o Instagram e o Facebook, e até elogiavam e planejavam aumentar o uso entre crianças, Zuckerberg pareceu ficar frustrado. O CEO da Meta Platforms, Mark Zuckerberg, chega ao Tribunal de Los Angeles. REUTERS/Mike Blake "Não vejo por que isso é tão complicado", disse o bilionário em um dado momento. "Tem sido nossa política consistente que eles [menores de 13 anos] não são permitidos e tentamos removê-los. Não somos perfeitos", complementou ele. Os advogados de Kaley pressionaram Zuckerberg sobre a alegação de que o único objetivo da Meta era criar plataformas úteis — algo que, segundo eles, naturalmente leva a um maior uso das redes sociais. Lanier disse que a dependência também leva as pessoas a usarem algo com mais frequência, e Zuckerberg pareceu, por um momento, não saber o que dizer. "Não sei o que dizer sobre isso", disse o CEO da Meta. "Acho que pode ser verdade, mas não sei se se aplica. Estou tentando construir um serviço." O foco dos advogados de Kaley no vício em redes sociais pode ser um argumento difícil de sustentar, já que a condição não existe oficialmente nos manuais de Medicina. Quando os advogados da Meta conversaram com uma terapeuta que havia tratado Kaley, ela admitiu nunca ter diagnosticado sua paciente com dependência em redes sociais. Os argumentos da Meta se concentraram principalmente na vida familiar de Kaley, e às vezes fazem referência às próprias postagens dela no Instagram, ao mostrar uma garota que lidava com pais instáveis, críticos de sua aparência e, por vezes, abusivos emocional, verbal e fisicamente. A principal questão levantada pela empresa perante o júri foi que os problemas de saúde mental de Kaley não são claramente causados ​​pelo uso das redes sociais, e muitos outros fatores também são responsáveis pela história de vida dela. Hoje, Kaley relata ter um relacionamento amoroso com a mãe e que trabalha enquanto segue os estudos. Ela ainda continua a usar as redes sociais — e até admitiu ao tribunal que estaria interessada em seguir uma carreira de gestão de mídias sociais. Porém, quando perguntada se sua vida seria melhor se ela nunca tivesse usado plataformas como o Instagram, a resposta de Kaley foi curta: "Sim."

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