segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Apagão na nuvem da Amazon derruba aplicativos e serviços ao redor do mundo


Logo da Amazon, gigante da tecnologia. REUTERS/Dado Ruvic/Illustration/File Photo A unidade de serviços em nuvem da Amazon, a AWS, sofreu uma pane nesta segunda-feira (20), o que causou problemas de conectividade em muitas empresas ao redor do mundo e interrompendo serviços de vários sites e aplicativos populares, incluindo Fortnite e Snapchat. "Podemos confirmar aumento nas taxas de erro e latência para múltiplos serviços da AWS na região US-EAST-1", informou a AWS em uma atualização em sua página de status. A startup de inteligência artificial Perplexity, a corretora de criptomoedas Coinbase e o app de negociação Robinhood atribuíram as interrupções à AWS. "O Perplexity está fora do ar agora. A causa raiz é um problema na AWS. Estamos trabalhando para resolver", disse o CEO da Perplexity, Aravind Srinivas, em uma publicação no X. A AWS fornece poder de computação sob demanda, armazenamento de dados e outros serviços digitais para empresas, governos e indivíduos. Interrupções em seus servidores podem causar panes em sites e plataformas que dependem de sua infraestrutura de nuvem. A AWS compete com os serviços de nuvem do Google e da Microsoft. AWS e Amazon não responderam a pedidos de comentário feitos pela agência de notícias Reuters. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O site de compras da Amazon, o Prime Video e a assistente Alexa estavam enfrentando problemas, segundo o Downdetector. Os jogos Fortnite, da Epic Games, Roblox, Clash Royale e Clash of Clans estavam entre os sites de jogos que saíram do ar. Entre as plataformas financeiras que enfrentaram problemas estão o Venmo, do Paypal, e o Chime, segundo o site que monitora interrupções. O aplicativo Lyft, rival do Uber, também ficou fora do ar para milhares de usuários nos Estados Unidos. A presidente do aplicativo de mensagens Signal, Meredith Whittaker, também confirmou no X que sua plataforma foi afetada pela pane da AWS.

Como atender ligações sem precisar falar no celular


Que tal atender ao telefone sem precisar atender? Hoje em dia, usamos o celular para tudo — menos para atender ligações. Na maioria das vezes, é golpe ou alguém ligando por engano. Mas dá para atender as ligações sem precisar atender, pelo menos nos smartphones mais recentes da Apple e da Samsung. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Os aparelhos utilizam recursos de inteligência artificial para atender e filtrar as chamadas feitas por números desconhecidos. Uma voz robótica "conversa" com quem está do outro lado da linha. Basta acompanhar na tela o papo e decidir se vai atender ou não. Veja como fazer: No iPhone, ative a “Filtragem de Ligações”. Vá a Ajustes > Apps > Telefone > Filtrar números desconhecidos e escolher "Perguntar motivo da ligação". Nessa área, também é possível bloquear todas as chamadas de números desconhecidos. Se a filtragem de ligações estiver ativada, os números de telefone desconhecidos serão atendidos automaticamente pelo robô. O recurso está disponível apenas em aparelhos compatíveis com a Apple Intelligence, como o iPhone 15 Pro e do iPhone 16 em diante – incluindo o 16e. Tela do iPhone 17 (esq.) atendendo a uma ligação de número desconhecido e borrado por privacidade. À direita, a tela de configurações do iOS Reprodução Nos Samsung Galaxy, a função se chama "Chamada por Texto". Abra o app de Telefone, clique nos três pontinhos do menu superior e abra as configurações. O Assistente de Chamada está na primeira opção. Escolha “Chamada por Texto". Diferentemente do que acontece nos iPhones, a ligação não é atendida sozinha nos Galaxy. É preciso escolher a opção “Chamada por Texto" na tela quando o aparelho tocar. A funcionalidade está disponível nos celulares da Samsung com Galaxy AI, a inteligência artificial criada pela fabricante. Vai de modelos intermediários (A56) a topo de linha (linhas S24 e S25, Z Fold7, Z Flip7). Configurações para atender chamadas sem precisar atender nos Samsung Galaxy Reprodução Veja a seguir uma lista com 4 celulares da Apple e da Samsung capazes de atender ligações de forma automática. Os preços iam de R$ 2.300 a R$ 10.500 nas lojas da internet consultadas no meio de outubro. iPhone 16e iPhone Air Galaxy A56 Galaxy S25 Edge Esta reportagem foi produzida com total independência editorial por nosso time de jornalistas e colaboradores especializados. Caso o leitor opte por adquirir algum produto a partir de links disponibilizados, a Globo poderá auferir receita por meio de parcerias comerciais. Esclarecemos que a Globo não possui qualquer controle ou responsabilidade acerca da eventual experiência de compra, mesmo que a partir dos links disponibilizados. Questionamentos ou reclamações em relação ao produto adquirido e/ou processo de compra, pagamento e entrega deverão ser direcionados diretamente ao lojista responsável. 5 diferenças entre o iPhone 17 e o iPhone 16 Mais finos que um lápis: g1 testa o iPhone Air e o Galaxy S25 Edge

sábado, 18 de outubro de 2025

Torres de vigilância em prédios monitoram todos, mas levantam dúvidas sobre uso dos dados e eficácia contra o crime


Torres com câmeras se espalham e levantam alerta sobre privacidade Quem anda por São Paulo e pelo Rio de Janeiro já está acostumado a ver torres com câmeras de vigilância em frente a prédios residenciais. A maioria desses equipamentos está instalada em condomínios, mas eles também começam a aparecer em edifícios comerciais. Apesar de serem apresentadas como reforço à segurança, essas torres levantam dúvidas entre pesquisadores em segurança pública, que apontam falta de transparência sobre o uso das imagens e incertezas quanto ao impacto real na diminuição do crime. "Além da ausência de regras, há preocupação com o uso indevido dos dados, que podem servir à segurança corporativa ou à produção de informações privadas sem qualquer controle do cidadão", diz Daniel Edler, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP). 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Esse tipo de vigilância começou a ganhar espaço a partir de 2019, principalmente após o uso de câmeras com reconhecimento facial nos carnavais de Salvador e do Rio de Janeiro, explica Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). E a expansão desse tipo de tecnologia acontece em um momento em que a população se sente cada vez mais insegura. A violência é a principal preocupação para 28% dos brasileiros, segundo pesquisa da Quaest encomendada pela Genial Investimentos no mês passado. Como essas torres funcionam Torre de vigilância da empresa CoSecurity Darlan Helder/g1 Essas torres coloridas, com luzes de LED e câmeras voltadas para calçadas e carros, são oferecidas por empresas como CoSecurity (do Grupo Haganá), Gabriel e White Segurança. Elas concentram a oferta do serviço nas principais cidades do país e prometem monitorar o movimento no entorno dos prédios. Os moradores costumam ter acesso às imagens por aplicativo — em uma das empresas, o histórico fica disponível por até 14 dias. Alguns modelos têm ainda um botão de pânico que aciona a central responsável por contatar a polícia ou o Corpo de Bombeiros em caso de emergência. O custo do serviço varia conforme o número de torres contratadas. Uma empresa cobra cerca de R$ 1,5 mil por unidade ao mês, enquanto outra afirma que o valor mensal fica entre R$ 389 e R$ 749, dependendo do modelo e dos recursos oferecidos. Parceria com programas de segurança pública Central de monitoramento do Smart Sampa Reprodução/Prefeitura de São Paulo As câmeras não fazem reconhecimento facial, e as gravações podem ser compartilhadas com a polícia mediante solicitação formal. Em São Paulo, as empresas destacam como diferencial a integração dos equipamentos a programas públicos, como o Smart Sampa (prefeitura) e o Muralha Paulista (governo estadual), que ajudam a identificar rostos de procurados e placas de veículos roubados. Condomínios e empresas podem, sem custo, aderir voluntariamente e conectar suas câmeras às centrais de monitoramento, onde agentes policiais acompanham as imagens em tempo real. Segundo a prefeitura, o Smart Sampa reúne 40 mil câmeras, sendo pelo menos 20 mil de condomínios e empresas parceiras. A CoSecurity afirma ser hoje a maior participante privada do programa, com cerca de 8 mil câmeras — o equivalente a 25% da rede. No Rio, a Gabriel diz fornecer imagens ao vivo ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) e afirma repassar registros à polícia sempre que há solicitação formal. As duas principais empresas afirmam ter colaborado na solução de crimes nas cidades onde atuam. A Gabriel, criada em 2019, diz ter ajudado na recuperação de mais de 100 veículos e no indiciamento de 566 suspeitos. Já a CoSecurity relata 2 mil foragidos capturados e 3.245 prisões em flagrante após integrar o Smart Sampa. O g1 procurou a Prefeitura de São Paulo para confirmar quantas câmeras privadas integradas ao Smart Sampa ajudaram a solucionar crimes, mas foi informado que "o sistema não distingue se a prisão foi feita por meio de câmera privada ou pública; os dados englobam ambas". Preocupação com dados e eficácia Totem de câmera de vigilância da Gabriel instalado na região do Brooklin, na Zona Sul de São Paulo Darlan Helder/g1 O g1 ouviu quatro pesquisadores em segurança pública que questionam a eficácia dessas torres, citando falta de transparência no uso dos dados e ausência de regras claras. Segundo eles, ainda não há estudos que comprovem resultados no combate ao crime. "Como não há regulamentação, também não existe transparência nem responsabilização sobre os sistemas privados de segurança", explica Daniel Edler, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP). Ele questiona de que forma as empresas garantem que os dados não estão sendo usados para outros fins, como produção de informação privada ou segurança corporativa. "É preciso ter um controle mais rigoroso sobre o acesso a essas informações, porque estamos falando de empresas privadas que lidam com imagens de muitas pessoas", completa Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz. "Um lojista do outro lado da rua pode ter sua rotina registrada diariamente por essas torres: a hora em que ele chega, sai e fecha o caixa. E se esses dados vazarem?", questiona. Apesar das promessas de eficiência, há casos de frustração. Recentemente, o Profissão Repórter mostrou que, em um condomínio de São Paulo, moradores recorreram a vasos de planta para tentar evitar roubos de celular de quem ficava na portaria, após as torres deixarem de coibir os assaltos (veja no vídeo abaixo). Moradores de prédio em SP se frustram com totens de câmera e recorrem a vasos de planta para evitar assalto Rafael Rocha afirma que a polícia não tem estrutura suficiente para investigar todos os crimes patrimoniais, mesmo com o apoio das imagens de alta resolução fornecidas por empresas. "Um delegado já tem milhares de casos de roubo acumulados. Ele não tem efetivo nem estrutura para agir rapidamente quando ocorre um assalto em frente ao totem", diz. Os especialistas citam ainda roubos cometidos por criminosos de moto com capacete, o que dificulta a identificação pelas câmeras integradas ao programa Smart Sampa. "Não há uma padronização técnica", ressalta Thallita Lima, coordenadora do projeto O Panóptico, que monitora o uso de tecnologias de vigilância no Brasil. Ela também aponta para a falta de uma reflexão sobre os impactos do uso do espaço urbano, "já que há totens bem na calçada". O g1 encontrou torres de vigilância instaladas em calçadas de São Paulo, o que só é permitido com autorização das prefeituras. Na capital paulista, foram identificados totens das empresas Defender, MasterCam e Gabriel em vias públicas. Nenhuma delas informou se obteve autorização. Thallita ainda aponta que as imagens captadas muitas vezes circulam informalmente, como fotos de pessoas consideradas suspeitas que são compartilhadas em grupos de WhatsApp. "Isso pode gerar problemas sérios, porque estamos falando do risco de se fazer justiça com as próprias mãos por meio da tecnologia". Rafael Rocha sugere que uma das medidas essenciais de regulamentação deveria ser impedir que moradores façam prints (capturas de tela) das imagens, para evitar sua circulação indevida em grupos de WhatsApp, como acontece atualmente. Procurada pelo g1 para comentar esse tipo de monitoramento, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) afirmou que o tema é prioridade e está na agenda de discussões para o biênio 2025-2026, com ênfase nas questões envolvendo biometria facial. Reconhecimento facial: veja dilemas na implantação da tecnologia em condomínios Criminosos podem usar suas fotos nas redes para aplicar golpes financeiros? Implante cerebral é usado para controlar assistente virtual Alexa

A história de 3 mil anos por trás do símbolo @


Veja os vídeos que estão em alta no g1 Em 2010, a curadora de arquitetura e design Paola Antonelli, do Museu de Arte Moderna de Nova York, nos Estados Unidos, tomou uma decisão audaciosa. "Eu queria uma exposição de objetos que demonstrasse que todos podem ter uma exposição com qualidade de museu dentro da sua gaveta", explicou ela. "Isso inclui o bloco de Post-it, M&Ms, o clipe de papel, OXO Good Grips [um conjunto popular de utensílios de cozinha], objetos que são tão incorporados às nossas vidas e funcionam tão bem que nem prestamos mais atenção neles." "Parte da função de um museu, especialmente ao isolar esses objetos, é criar dramatização e distanciamento, permitindo que as pessoas os observem com olhares diferentes", afirma Antonelli. "De repente, você é surpreendido pela história por trás deles. Você percebe que existe ali todo um universo." Em Taiwan, @ é chamado de 'pequeno camundongo'. 'Cachorro' em russo, 'caracol' em italiano e 'rabo de macaco', em holandês BBC/Serenity Strull/Getty Images/BBC Quando ela definiu a exposição, a decisão pareceu óbvia. Antonelli comprou o símbolo @ para a coleção permanente do museu. Pare por um minuto e observe as saliências e depressões do seu teclado. Símbolos de moedas à parte, talvez não haja outro caractere com mais peso cultural do que @. A arroba é o encanamento da internet. Ela conecta o seu e-mail e destaca o seu nome de usuário no fluxo de texto. Provavelmente, você já a utilizou hoje. É claro que &, #, % e * são sinais úteis e onipresentes. Mas como o símbolo @ conseguiu tanto poder? Pode parecer um fenômeno típico da atualidade. Mas, oculto entre as curvas deste pequeno "a" enfeitado, existe uma história que remonta a milhares de anos atrás. Ela atravessa barreiras nacionais, culturais e linguísticas que este sinal cruzou para abrir caminho pelas páginas da história humana. "Trata-se de uma abreviação, afirma Keith Houston, autor do livro Shady Characters: The Secret History of Punctuation ("Caracteres obscuros: a história secreta da pontuação", em tradução livre). Comerciantes europeus costumavam usar @ para marcar os embarques de vinho e cereais na época do Renascimento Serenity Strull/Getty Images/BBC A única questão é qual seria o seu significado original. E um ponto é claro: existe uma conexão com a cerâmica. Os antigos gregos se orgulhavam de um estilo de vaso de argila chamado ânfora. Você certamente já as observou em algum lugar. As ânforas são altas e esculturais, com duas alças e um longo gargalo. Elas eram usadas para armazenar vinho, cereais, óleo de oliva e outros produtos. A prática se manteve no Mediterrâneo e em outros lugares por séculos. E, com o passar do tempo, a ânfora passou a ser uma unidade padrão de medida. "Os comerciantes precisavam comunicar frequentemente a ideia de que 'vou vender a você uma certa quantidade de ânforas de alguma coisa a um preço específico'", segundo Houston. Até que, por fim, as pessoas começaram a desenhar a letra "a" com uma cauda longa em torno dela, eliminando o restante das letras. No dia 4 de maio de 1536, um comerciante chamado Francesco Lapi escreveu uma carta de Sevilha, na Espanha, para Roma (hoje, na Itália). Ele disse que uma ânfora de vinho valia cerca de 70 ou 80 ducados, usando o sinal @ para designar "ânfora". Este é o primeiro exemplo conhecido de uso de @ no sentido moderno, mas não é a cópia mais antiga do símbolo. Podemos encontrar @ nas páginas de um manuscrito búlgaro de 1375, mas sem significado discernível. Trata-se apenas de um floreamento da primeira letra da palavra "amém". As ânforas gregas deram origem ao sentido moderno do símbolo @ BBC/Getty Images Depois de centenas de anos de sucesso, as ânforas acabaram caindo em desuso. Mas o sinal @ permaneceu entre os contadores e registradores, para indicar o preço das mercadorias. "Isso ocorreu graças às máquinas de escrever, que se difundiram primeiramente nos Estados Unidos, no século 19", explica o professor de tipografia Gerry Leonidas, da Universidade de Reading, no Reino Unido. Isso ocorreu, em parte, devido à explosão dos catálogos de compras pelo correio nos Estados Unidos, segundo ele. Este tipo de comércio gerou imensas necessidades de administração e, por fim, toda uma classe de datilógrafos profissionais. "A máquina de escrever é essencialmente uma forma de minimizar os riscos ocasionados pela má caligrafia das pessoas, aumentando a eficiência e a previsibilidade da administração dos escritórios", explica Leonidas. As máquinas de escrever eram tão caras e complexas que alguns modelos não tinham os algarismos "um" e "zero". Você simplesmente datilografava as letras "O" e "I" (ou "l"). Mas a inclusão de @ já era necessária no final do século 19. "E, como as máquinas de escrever estão relacionadas aos processos comerciais e contábeis, @ sobreviveu ao longo de diferentes gerações de máquinas de escrever, exatamente porque desempenha esse papel fundamental", segundo o professor. Quando os computadores ganharam teclados, @ veio com eles. Mas não era particularmente útil, a menos que você fosse contador. Tudo mudou graças ao cientista da computação Ray Tomlinson (1941-2016). Ele trabalhava na Arpanet, o projeto do governo dos Estados Unidos que estabeleceu as bases da internet. Tomlinson imaginou que as pessoas talvez quisessem enviar mensagens umas às outras e começou a trabalhar nesta ideia. Enquanto escrevia o código, ele precisava de uma forma de indicar onde cada pessoa específica ficava dentro da rede. E, olhando para o teclado, lá estava o símbolo que ele procurava. Foi assim que Tomlinson retirou @ do jargão comercial e o fincou no meio do endereço digital. E, em 1971, ele enviou o primeiro e-mail. À medida que a internet ultrapassava as fronteiras americanas e dominava a cultura humana no meio século seguinte, @ seguiu ao seu lado. Mas, conforme o símbolo se espalhava pelo mundo, algo curioso aconteceu. Ele começou a ganhar novos nomes. Os italianos, hoje, chamam o sinal @ de chiocciola ("caracol"). É fácil perceber a semelhança. Em hebraico, às vezes, @ é chamado de strudel. Em checo, é zavináč, o nome dado a uma conserva de arenque enrolado em um cilindro, normalmente com um recheio saboroso. Os russos, às vezes, chamam @ de sobaka, que significa "cachorro". De fato, ele parece um animal de estimação enrolado para dormir, pelo menos se você olhar de relance. O nome russo gerou um longo histórico de brincadeiras fofas. Se você começar a estudar russo e ouvir alguém dizer "escreva para mim no cachorrinho", já sabe o que isso significa. "Atualmente, muitos dizem apenas at (em). Muita coisa passou a se falar em inglês nos últimos 25 anos", afirma o consultor de gerência freelancer Nick Fransen, da Bélgica — um país onde você pode crescer falando flamengo (também chamado de "holandês da Bélgica"), francês ou alemão, dependendo de onde morar. "Mas, alguns dias atrás, eu conversava com uma pessoa idosa que não falava muitos termos em inglês e voltei a chamar @ de apenstaartje, sem nem mesmo pensar a respeito", ele conta. Apenstaartje é o nome tradicional holandês do símbolo @, que significa "rabo de macaco". Em inglês, seu nome é apenas at ("em"), mas às vezes é designado "em comercial", devido à sua conexão com o mundo dos negócios. O símbolo @ nos obriga a criar novas identidades: o nome de usuário. Especialistas afirmam que ele está relacionado à nossa compreensão de nós mesmos. Serenity Strull/Getty Images/BBC O nome do símbolo @ em português e espanhol, "arroba", é uma antiga medida de volume, como a ânfora. Mas é também uma unidade de peso e equivale, no Brasil, a 15 kg. Mas o símbolo @ costuma ser usado hoje em dia, nos dois idiomas, para indicar gênero neutro. O símbolo substitui as letras "o" (para o masculino) e "a" (para o feminino). Por isso, quando escrevemos amig@s, por exemplo, estamos sendo mais inclusivos. "O motivo de @ não ter um nome especial em inglês é porque a sua definição inicial é muito clara e facilmente transmitida", explica Leonidas. "Mas, à medida que as pessoas começam a adaptar esses símbolos para seus idiomas locais, eles precisam de uma forma de se lembrar dele." "Alguém entrega a você um computador, você olha para ele e descreve sua aparência, em vez de procurar seu nome. Em grego, chamamos de 'patinho'", ele conta. Da mesma forma que Tomlinson adotou este símbolo curvilíneo para seu próprio trabalho, @ continua a ser reinterpretado para outros fins. "Existe algo muito interessante sobre @, que acho único", destaca Leonidas. "É o que acontece ao lado do símbolo. Ao escrever seu nome, você usa letras maiúsculas e inclui um espaço entre o primeiro nome e o sobrenome. "Mas @, como identificador, obriga o uso de caixa baixa nos nomes e a eliminação completa dos espaços", explica ele. "Precisamos inventar uma única palavra exclusiva para nós mesmos. Isso nos força a pensar como devemos apresentar nossa identidade." Pesquisas indicam algo que, provavelmente, você já vivenciou. Em algum nível, escolher um nome de usuário pode ser um processo carregado de emoções. Normalmente, as pessoas não querem apenas que suas identificações sejam únicas. Elas querem que elas pareçam corretas, que as representem, que pareçam boas e expressem algo sobre sua personalidade ou identidade. Os nomes de usuários são utilizados para expressar quem somos ou para criar uma personalidade online, separada da nossa identidade no mundo real. Os linguistas que estudam a cultura online já encontraram nomes de usuários tão ligados ao nosso senso próprio que alterá-los pode ser algo estranhamente íntimo, quase como mudar o nosso nome ou nossa aparência offline. E, nos principais pontos da internet, @ é inseparável da nossa identidade online. 'Pequeno umbigo' É claro que temos fortes sentimentos sobre @, segundo Leonidas. O símbolo está ligado à nossa compreensão como ser humano. A exibição Pirouette: Turning Points in Design ("Pirueta: reviravoltas no design", em tradução livre), em cartaz no Museu de Arte Moderna de Nova York, oferece um ambiente longe do seu teclado para apreciar o sinal @, milhares de anos após suas raízes na cerâmica da Grécia antiga. "Fomos treinados, até aqui, para compreender como são feitos os filmes ou como é composta uma música", destaca Antonelli. "Mas não fomos treinados a fazer o mesmo com os objetos." "O que quero realmente transmitir sobre @ é a mesma satisfação, o momento heureca, a sensação de felicidade e o orgulho de fazer parte do mundo do design, que senti ao perceber tudo o que existe naquele pequeno símbolo em forma de umbigo." O sinal @ está presente na exposição Pirouette: Turning Points in Design, no Museu de Arte Moderna de Nova York, até o dia 15 de novembro de 2025. * Thomas Germain é jornalista da BBC, especializado em tecnologia. Ele escreve há quase uma década sobre inteligência artificial, privacidade e os confins mais profundos da cultura da internet. Seu nome de usuário é @thomasgermain no X (antigo Twitter) e no TikTok. Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.

Máquinas podem pensar? Os 70 anos de história que levaram à inteligência artificial dos dias atuais


Google e Chat GPT não são médicos; conheça os riscos de se informar somente com eles Ao fazer compras na internet, tiro dúvidas sobre o produto com um chat. Não sei identificar com certeza se quem responde é uma pessoa de verdade ou um robô. Na sala de aula, professores discutem como garantir que o conteúdo produzido por seus alunos foi de fato escrito por eles, não por chatbots. Até mesmo ao procurar emprego não está garantido que o recrutador será uma pessoa ou uma inteligência artificial (e se o currículo apresentado foi feito pelo candidato ou, igualmente, por uma IA). Homem ajusta fiação de máquina projetada para usar um tipo de rede neural, na década de 60 Frederic Lewis via Getty Images Está cada vez mais difícil detectar o que é ou não feito por um humano. Essa questão, vivida em escala massiva pela primeira vez na história, já tinha sido antecipada há mais de 70 anos, quando Alan Turing publicou o artigo "Computing Machinery and Intelligence", em 1950. Ele começa com uma pergunta simples e perturbadora: as máquinas podem pensar? Como foi que chegamos a esse ponto, em que ilusões de inteligência desafiam nossa noção do que é humano? A resposta envolve algumas décadas de história da ciência, controvérsias e duelos entre diferentes visões do campo. Para fazer esse resgate, a BBC News Brasil consultou artigos científicos, livros e entrevistou pesquisadores de IA e professores. Turing foi um pioneiro cientista da computação e matemático inglês cujo trabalho inovador é considerado responsável por ter encerrado a Segunda Guerra Mundial antes do previsto. Ele foi condenado à castração química após admitir ter cometido "atos de indecência grave" em 1952. Foi encontrado morto por envenenamento por cianeto em 1954. Uma investigação concluiu que se tratava de suicídio. Christopher Furlong/Getty Images/BBC Máquinas podem pensar? O cientista britânico Alan Turing (1912-1954) é tido como um dos precursores da inteligência artificial — isso em um momento em que, vale lembrar, o termo sequer tinha sido criado. A expressão só se tornaria conhecida mais tarde, em 1956, com o cientista da computação John McCarthy (1927-2011). Ainda assim, as ideias do autor teriam grande influência sobre o campo por décadas. Foi nesse artigo que Turing apresentou o experimento que mais tarde seria chamado de Teste de Turing. Ele descreve primeiro uma versão do que chamou de "Jogo da Imitação": três participantes — um homem, uma mulher e um interrogador, que pode ser de qualquer gênero. O interrogador fica em um cômodo separado e só pode se comunicar por meio de mensagens escritas. Seu objetivo é descobrir quem é o homem e quem é a mulher. Os dois participantes tentam convencê-lo, um dizendo a verdade e o outro tentando enganar. Turing propôs uma variação: substituir um dos dois participantes por uma máquina. Se, após a interação, o interrogador não conseguir distinguir o humano do computador, então se poderia dizer que a máquina "pensa". Em 1951, Turing deu uma palestra na BBC sobre o tema, parte de uma série de falas sobre a ciência emergente da computação, que contou com outros pioneiros da época. Não existe gravação da transmissão de Turing, mas o roteiro original, com suas anotações e marcações manuscritas, permanece no Arquivo Escrito da BBC. O autor faz uma previsão no artigo: de que, em 50 anos (ou seja, por volta dos anos 2000), computadores teriam capacidade para armazenar muito mais palavras, a ponto de que interrogadores não teriam mais de 70% de chance de acertar o teste após cinco minutos de perguntas. Ele também anteciparia o conceito de aprendizado de máquina, ao dizer que, ao invés de programar tudo de uma vez, sistemas deveriam ser criados para aprender com os dados. "Se esse (programa) fosse então submetido a um curso de educação apropriado, obter-se-ia o cérebro adulto. Presumivelmente, o cérebro da criança é algo como um caderno que se compra na papelaria: pouco mecanismo e muitas folhas em branco." "Ele faz algumas previsões. E a conclusão do artigo dele descreve o que foi o desenvolvimento da IA hoje", diz o professor de História e doutor em História Social pela USP Victor Sobreira. A criação do prêmio Turing, conhecido como Nobel da computação, ajudaria ainda mais a consolidá-lo como referência, destaca Sobreira. Mas a ideia de automatizar tarefas humanas é bem anterior a Turing. "Já na mitologia grega havia o deus que criou um autômato, Talos, para proteger a ilha de Creta. Aristóteles, na obra Política, também discutia a possibilidade de seres automáticos ajudarem no trabalho e acabarem com o debate sobre mestres e escravos", conta Anderson Rocha, professor titular do Instituto de Computação da Unicamp. Mas se o termo "inteligência artificial" não é citado no artigo de Turing, onde ele surgiu, afinal? Uma réplica funcional do computador Apple 1 original, em exibição no Museu da Apple em 16 de março de 2023, em Varsóvia, Polônia. Getty Images/BBC Jogada de marketing? Karen Hao, jornalista e autora do livro Empire of AI (veja entrevista da BBC em vídeo com a autora), lembra que o termo "inteligência artificial" surgiu em 1956, durante um encontro no Dartmouth College que reuniu cerca de vinte cientistas — "todos homens brancos", em suas palavras — vindos da matemática, da criptografia e das ciências cognitivas. John McCarthy, professor que organizou o evento, inicialmente chamava o campo de automata studies, o estudo de máquinas de comportamento automático. Mas o nome não atraía atenção. Ao buscar uma expressão mais chamativa, cunhou "artificial intelligence". A escolha foi, segundo a autora, uma estratégia de marketing: "inteligência" soava sofisticada, desejável e benéfica, capaz de mobilizar financiamento e despertar ambição científica. A troca funcionou — o novo termo deu identidade a uma disciplina nascente e passou a atrair recursos e prestígio. "Dartmouth acabou virando um mito fundador, mas na prática foi um encontro de dois meses sem tanto avanço concreto", diz o professor Victor Sobreira. "Mas estavam ali os que depois se tornaram grandes nomes da área nos EUA, fundadores de centros como o do MIT e Stanford, que definiram a pesquisa na área por décadas", disse ele, destacando os nomes de John McCarthy e Marvin Minsky. "Ali já nasce um pouco dessa questão do hype associado à IA", diz Anderson Rocha, da Unicamp. Alguns pesquisadores criticam essa visão de "mito de origem" da IA, por fazer parecer que a ideia teria nascido de um único projeto acadêmico conduzido por matemáticos e cientistas da computação. Um artigo publicado em 2023 na revista BJHS Themes, por exemplo, aponta que as bases da IA também se relacionam a outras trajetórias históricas, como a industrialização, o militarismo e o colonialismo. Esses vínculos aparecem, segundo os autores, na dependência de minerais extraídos em condições precárias em países africanos e na reprodução de lógicas coloniais de classificação de pessoas e territórios, por exemplo. Mas como definir exatamente o que é inteligência? Como reproduzi-la em um computador? A Faculdade de Dartmouth, nos EUA. O termo inteligência artificial foi cunhado durante evento na instituição, na década de 50. Getty Images Como definir inteligência? A batalha de duas visões Em Empire of AI, Karen Hao conta que após a conferência de Dartmouth, dois campos concorrentes surgiram: o primeiro, conhecido como simbolistas, acreditava que a inteligência vem do conhecimento. Por isso, a IA deveria codificar representações simbólicas do conhecimento do mundo em máquinas, criando assim os chamados expert systems. 'Foi daí que nasceram linguagens como o Prolog (linguagem de programação dos anos 70 baseada em regras para deduzir respostas) e os sistemas especialistas dos anos 1980, muito usados, por exemplo, na aviação", explica Anderson Rocha, professor titular do Instituto de Computação da Unicamp. O outro campo era o dos conexionistas, que acreditam que a inteligência vem do aprendizado. Ou seja, para desenvolver a IA seria necessário criar sistemas de aprendizado de máquina que imitem como o cérebro humano processa informações. Foi daí que surgiram as redes neurais, que tentam simular as conexões do cérebro e formam, hoje, a base da IA moderna. Em julho de 1958, o jornal americano The New York Times começa o texto de uma reportagem com um anúncio bombástico: a invenção do protótipo de um computador que poderia, no futuro, "andar, falar, ver, escrever, se reproduzir e ser consciente de sua existência", nas palavras do jornal. O jornal se referia ao Perceptron, projeto desenvolvido pelo professor de psicologia Frank Rosenblatt, da Universidade de Cornell, que disse que a máquina seria o primeiro dispositivo a "pensar como o cérebro humano", que "cometeria erros, mas ficaria mais inteligente na medida em que ganhasse experiência", segundo a reportagem. O sistema era capaz de identificar padrões para diferenciar cartas. Rosenblatt foi pioneiro na construção de uma máquina seguindo o princípio das redes neurais, em que um elemento digital é comparável a um impulso elétrico emitido pelo neurônio, conforme descreve Victor Sobreira em artigo que organiza a literatura sobre a história da IA. Só que essa abordagem, na época em que foi criada, era considerada muito cara, sem poder computacional nem dados suficientes. Marvin Minsky, um dos organizadores do evento em Dartmouth, ridicularizava ideias de colegas conexionistas, que disputavam os mesmos financiamentos. Minsky seria coautor de um livro que, segundo a jornalista Karen Hao, teria ajudado a limitar o financiamento do campo concorrente por décadas. "Durante muitos anos, a abordagem conexionista ficou atrás da simbólica", diz Anderson Rocha, da Unicamp. "Com a explosão da internet, das redes sociais e das GPUs (unidade de processamento gráfico), esse cenário mudou. Passamos a ter muitos dados e muito mais capacidade de processamento. Isso empoderou a ideia original das redes neurais e fez a inteligência artificial conexionista ganhar protagonismo econômico e social", afirma o professor. "Hoje a simbólica está em desvantagem porque é muito difícil traduzir o conhecimento de um especialista em regras lógicas. Já a conexionista aprende a partir de dados em grande escala. Mas ela também tem limitações. Por isso, há um movimento atual tentando unir as duas correntes — o que chamamos de IA neurossimbólica", afirma. Nem só o Perceptron ganhou espaço da imprensa à época. Um chatbot, representando a corrente dos simbolistas, surpreenderia com sua capacidade de simular conversas com humanos. Eliza, o chatbot que 'enganou' ao simular uma conversa Em 1966, anos depois da notícia sobre o Perceptron estampar o New York Times, outro sistema chamou a atenção da mídia: Eliza, um chatbot que rodava em uma máquina gigante. Como lembra a jornalista Karen Hao, tratava-se de uma IA simbólica baseada em regras simples, capaz apenas de simular atenção e responsividade. O nome vinha de Eliza Doolittle, a florista do filme My Fair Lady e interpretada por Audrey Hepburn que, ao mudar fala e maneiras, conseguia se passar por uma pessoa da elite. Em geral, o programa demonstrava interesse no que o usuário disse e então pedia mais informações. Um exemplo citado no livro Empire of AI é essa conversa abaixo, extraída de um artigo produzido pelo criador do chatbot, Joseph Weizenbaum: Usuário: Os homens são todos iguais. ELIZA: de que maneira Usuário: Eles estão sempre nos incomodando com uma coisa ou outra. ELIZA: você pode pensar num exemplo específico Usuário: bem, meu namorado me fez vir aqui. ELIZA: seu namorado te fez vir aqui Usuário: Ele diz que estou deprimida a maior parte do tempo ELIZA: Sinto muito saber que você está deprimida Usuário: É verdade, estou infeliz. ELIZA: Você acha que vir aqui te ajudará a não ser infeliz? O experimento testava se humanos poderiam acreditar em uma ilusão de inteligência — e funcionou. Segundo a pesquisa de Karen Hao, alguns psiquiatras chegaram a prever que, em poucos anos, seria possível criar uma psicoterapia automatizada, algo que hoje já é tentado com as IAs atuais. Mas por que a pesquisa na área não evoluiu na velocidade que se previa? As duras críticas que congelaram o financiamento da pesquisa em IA por anos Victor Sobreira conta, em seu artigo que resgata a história da IA, que duras críticas ao campo produzidas entre os anos 60 e 70 contribuíram para o corte do financiamento de pesquisas na área por décadas. Uma delas, de 1965, foi feita em um estudo do filósofo Hubert Dreyfus, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O título provocativo, Alchemy and Artificial Intelligence já dava o tom do que viria a seguir. Para Dreyfus, não se deveria investir mais em pesquisas que buscassem espelhar o comportamento humano em máquinas digitais, já que os objetivos prometidos estavam longe de serem alcançados. Em outro trabalho, de 1973, o matemático James Lighthill apontou o que chamou de explosões combinatórias: por mais complexos que fossem, esses sistemas eram baseados em regras. Tal abordagem só funcionaria, portanto, em situações controladas e com poucas variáveis, como em um jogo, mas não em situações do mundo real. "Nos anos 1970 e 1980 tivemos os chamados invernos da inteligência artificial, períodos em que o financiamento caiu muito e houve menos interesse social e político na área", explica Anderson Rocha, da Unicamp. Vitórias de IA sobre humanos em jogos impulsionam atenção ao campo Alguns dos grandes momentos da IA, ao menos no quesito chamar atenção do grande público, aconteceram em momentos em que máquinas derrotaram humanos em jogos. "Durante todo o período de desenvolvimento da IA, jogos foram importantes e continuam sendo importantes, porque em jogos você tem uma simulação de uma situação, muitas vezes que você conhece. Com regras e ambiente relativamente controlado você consegue avaliar bem os seus algoritmos, as suas técnicas", diz Anderson Rocha, professor da Unicamp. Uma reportagem da BBC lembra um episódio que simboliza o início dessa relação entre jogos e IA. O texto conta que, em 1968, um campeão escocês de xadrez, David Levy, estava em uma festa que tinha como anfitrião Donald Michie, fundador do Departamento de IA da Universidade de Edimburgo. Levy conversava com o inventor do termo inteligência artificial, John McCarthy, que o desafiou para uma partida. Levy derrotou o americano McCarthy, mas o pesquisador foi embora com uma promessa: de que, em 10 anos, computadores teriam sucesso onde ele falhara. Levy prometeu, então, pagar US$ 500 caso perdesse para um computador antes de 1979. "Eu ganhava menos de mil dólares por ano, mas estava muito confiante", lembrou. Em 1978, Levy enfrentou um computador e disputou cinco partidas, das quais venceu três. Perderia somente em 1989, em uma série promovida pela Sociedade Britânica de Xadrez, em Londres, contra um programa chamado Deep Thought (Pensamento Profundo). Mas o episódio que se tornaria mundialmente conhecido é o da partida em que o computador da IBM Deep Blue derrotaria o campeão mundial russo Garry Kasparov, em 1997. "A vitória do Deep Blue demonstrou que os computadores podem superar os seres humanos em jogos altamente estratégicos, há muito considerados um marco da inteligência humana", descreve um artigo sobre a história da IA publicado no site da IBM. Outro marco foi a vitória do AlphaGo, em 2016, contra o campeão mundial do jogo de Go, considerado muito mais complexo que o xadrez por oferecer cerca de 200 possibilidades de jogada a cada turno. No ano seguinte, outra equipe do Google publicaria um artigo que apresentaria as bases da IA generativa, base de sistemas de hoje como o ChatGPT e o Gemini. O que dizia esse artigo? Transformer: a tecnologia que deu origem à IA generativa Em 2017, uma equipe do Google apresentou o Transformer, um novo tipo de rede neural capaz de captar o contexto de uma frase. Na prática, é como se a máquina previsse as palavras mais prováveis de uma sentença. Diferente dos modelos anteriores, que liam palavra por palavra, o Transformer olha para o todo e identifica quais trechos são mais importantes. É como se, ao ler um texto, fosse possível destacar de imediato as palavras-chave que dão sentido à mensagem. O artigo recebeu o título Attention is All You Need ("Atenção é tudo de que você precisa"). No exemplo "o gato sentou no tapete porque estava cansado", o modelo conecta diretamente "estava cansado" a "gato", sem precisar seguir rigidamente a ordem palavra por palavra. Esse mecanismo, chamado de autoatenção (self-attention), permite que o computador relacione cada palavra com todas as outras de uma frase ou trecho, e não apenas com a que vem antes ou depois. Assim, consegue entender conexões que podem estar bem distantes no texto. É isso que torna possível responder perguntas longas ou manter uma conversa coerente: o modelo dá mais peso às partes mais relevantes do que já foi dito. No artigo original, o modelo foi testado em tarefas de tradução. Mas Ilya Sutskever, cofundador e cientista-chefe da então ainda pequena OpenAI, enxergava na novidade um potencial que ia muito além. Elon Musk e Sam Altman, cofundadores da OpenAI Michael Kovac/Getty Images 'Aprendendo' com os livros No livro Empire of AI, Karen Hao relata que Ilya Sutskever, cofundador da OpenAI, enxergou no artigo do Google sobre Transformers um potencial maior que tradução ou buscas online: a chance de avançar o deep learning, técnica que usa redes neurais com muitas camadas para aprender padrões complexos a partir de grandes volumes de dados. Foi nesse cenário que pesquisadores da organização decidiram expandir o foco. Um artigo publicado pela OpenAI em 2018 mostraria que, ao treinar um modelo de linguagem para a tarefa genérica de prever a próxima palavra em milhões de frases, ele adquiria conhecimento que depois podia ser reaproveitado em várias outras tarefas, como responder perguntas. Para isso, treinaram a rede com mais de sete mil livros não publicados de gêneros diversos (de um dataset chamado BooksCorpus). A mudança mostrou que, ao tentar gerar frases convincentes, o sistema absorvia nuances profundas da linguagem. Sutskever resumia essa ideia dizendo que "inteligência é compressão": criar texto forçava a máquina a condensar conhecimento sobre o mundo. Em 2018, a OpenAI lançou o GPT-1 (Generative Pre-Trained Transformer). O "pre-trained" no nome indicava que o modelo foi treinado em um grande conjunto genérico de textos, para depois ser ajustado a tarefas específicas. O modelo validou a ideia e abriu caminho para versões mais robustas. Naquele momento a OpenAI ainda tinha apenas três anos de vida. Tinha sido fundada em 2015 por nomes como Elon Musk e Sam Altman, com a promessa de desenvolver IA de forma aberta e em benefício da humanidade. Musk já era um dos maiores nomes da tecnologia. Já Sam Altman teve uma carreira de sucesso graças ao desenvolvimento de aplicativos e ao investimento em startups. Em 2018, Musk deixou a OpenAI devido a conflitos internos. Os parceiros da OpenAI perceberam que, para atingir seus objetivos, precisariam transformar a organização sem fins lucrativos em uma empresa de propósito misto, com um componente com fins lucrativos que pudesse gerar recursos financeiros. Do GPT-1 em diante, foi uma questão de escala, com cada vez mais parâmetros. Quanto mais parâmetros, maior a capacidade do modelo de capturar nuances da linguagem quando é alimentado com grandes volumes de texto. Em 2022, chegaria ao GPT-3.5, que se tornaria a base do popular ChatGPT. Ilya Sutskever viu no artigo do Google potencial para alavancar pesquisas sobre deep learning Kimberly White/Getty Images A IA generativa chegou ao limite? Quando a OpenAI lançou seu mais recente modelo, o GPT-5, em agosto de 2025, havia a expectativa de um grande salto tecnológico, como a evolução vista entre os modelos 3 e 4. Mas críticos dizem que isso não foi alcançado. O Financial Times publicou um texto com o título "Is AI hitting a wall?" (A IA está batendo em uma parede?). Uma das críticas é que o ganho entre uma versão e outra tem sido conquistado com uma fórmula simples, de aumentar o número de dados usados e poder de computação. Mas que essa fórmula tem limites. Mais recentemente, Sam Altman, da OpenAI, recebeu críticas pelo lançamento de um aplicativo que usa inteligência artificial para geração de vídeos. Na quarta-feira (01/10) ele compartilhou, em sua conta do X, uma dessas críticas, que dizia: "Sam Altman há duas semanas nós precisamos de 7 trilhões de dólares e 10GW (gigawats, em referência ao consumo de energia da IA) para curar o câncer. Sam Altman hoje: Estamos lançando vídeos de AI slop (de baixa qualidade) comercializados como anúncios personalizados." Altman respondeu que entende a mensagem, mas que a empresa precisa de capital para construir uma IA "capaz de fazer ciência." "Também é bom mostrar às pessoas novas tecnologias/produtos interessantes ao longo do caminho, fazê-las sorrir e, com sorte, ganhar algum dinheiro, dada toda essa necessidade de computação", escreveu ele. Sam Altman rebate críticas que recebeu no X por lançamento de app de vídeos criados por IA Reprodução "Modelos como o GPT-5, o novo Gemini e o Claude são fantásticos, mas não conseguem lidar com aspectos básicos do raciocínio humano, como o senso comum, a noção de causa e consequência ou a capacidade de imaginar cenários contrafactuais", diz Anderson Rocha, professor titular do Instituto de Computação da Unicamp. "Isso não é algo que vai ser trazido a partir de dados. Chegamos no limite", diz. Outro desafio é reduzir a dependência de grandes volumes de informação e de recursos computacionais. "Precisamos chegar à performance atual, mas usando menos dados e menos energia, ou formas mais inteligentes de aprendizado que capturem padrões ainda não identificados", diz Rocha. Há ainda implicações sociais e políticas. "Os sistemas precisam tomar decisões mais explicáveis, auditáveis e menos enviesadas, de forma a não reproduzir discriminações contra minorias ou grupos específicos." Sobre a possibilidade de alcançar a inteligência humana, ele é cético: "Não sabemos, até porque a definição de inteligência é multifacetada. Envolve aspectos emocionais, sociais, psicológicos e políticos." 'A história da IA ainda está por ser construída' Quando o pesquisador Victor Sobreira começou a buscar a literatura sobre a história da IA, percebeu que eram os próprios pesquisadores do campo que contavam sobre essa trajetória, não historiadores. " A história da IA ainda está por ser construída de forma rigorosa, indo atrás dos arquivos, não apenas se baseando nos relatos dos próprios pesquisadores", diz. "É quase uma história autorreferencial." Em seu artigo, Sobreira defende que as fontes e a historiografia sobre IA são "extremamente problemáticas", já que foram, muitas vezes, "produzidas e construídas por pessoas próximas dos pesquisadores abordados, ocasionalmente até com financiamento dos objetos da pesquisa." Ele destaca que muitas das ideias presentes nessa literatura estariam desconexas de seu contexto político e social. E cita, como exemplo, a proximidade do campo com as forças militares norte-americanas durante a Guerra Fria. "O exército norte-americano tinha um interesse direto no assunto. Investiu muito dinheiro para além também de empresas privadas. Encontrei pouco material que se aprofunda diretamente nessa relação."

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Ligações telefônicas de grandes empresas vão ter selo de verificação no celular de clientes, diz Anatel


Veja os vídeos que estão em alta no g1 Ligações de empresas, como bancos e call centers, que fazem mais de 500 mil chamadas por mês vão precisar ser identificadas com um selo de verificação a partir de 17 de novembro, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O selo indica que o número foi autenticado, ou seja, verificado por um sistema que confirma se quem está ligando é realmente quem diz ser (veja mais abaixo). Esse processo também bloqueia ligações identificadas como fraudulentas. A medida tem como objetivo aumentar a segurança do consumidor e evitar golpes como o spoofing (quando criminosos falsificam números para se passar por empresas reais) e robocalls (chamadas automáticas que desligam quando são atendidas). 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Inicialmente, a Anatel definiu que todas as empresas teriam até 2028 para adotar o sistema. Mas, em agosto, no mesmo decreto que tirou a obrigatoriedade do prefixo 0303 em ligações de telemarketing, a agência encurtou o prazo para companhias que fazem mais de 500 mil ligações por mês. Ao g1, a agência confirmou que, com a autenticação, quem recebe a ligação vai ver um selo de verificação (que é redondo e tem um símbolo ✔ no meio) ao lado do número. Mas nem todos os smartphones são compatíveis com a tecnologia (veja mais abaixo) e, dependendo do sistema operacional, o selo aparece em momentos diferentes: 📱 Android: aparece na tela antes de atender (veja na imagem abaixo); 🍏 iOS: é exibido apenas no histórico da chamada. Como é uma ligação de número autenticado no Android g1/Thalita Ferraz Veja algumas perguntas e respostas sobre a autenticação de chamadas: 🙋‍♀️ O consumidor precisa fazer algo? 📱 Como funciona o sistema de autenticação? 🔒 Qual a diferença para o sistema Origem Verificada? 🙋‍♀️ O consumidor precisa fazer algo? O consumidor não precisa fazer ou pagar nada para receber ligações autenticadas. Cabe às empresas que pretendem fazer ligações, como bancos e call centers, contratarem o recurso junto às operadoras. Mas nem todos os aparelhos e redes são compatíveis. Veja as exigências, segundo a Anatel: ➡️O celular precisa estar conectado a uma rede 4G ou 5G. ➡️É necessário ter uma das seguintes versões do sistema operacional: Apple com iOS 18.2 ou superior — disponível do iPhone 11 ao 17; Samsung com Android 10 ou superior — disponível nos modelos Galaxy S23 e S22, entre outros; Outros aparelhos com Android a partir do 11 — disponível nos modelos Motorola Razr 50 ou Motorola Edge 50 Neo, entre outros. 📱 Como funciona o sistema de autenticação? Ligações telefônicas de grandes empresas vão ter selo de verificação no celular de clientes, diz Anatel Pongsawat Pasom/Unsplash A partir de um protocolo chamado STIR/SHAKEN, que checa em tempo real se o número exibido corresponde, de fato, à empresa que está ligando. A validação é feita por meio de uma espécie de banco de dados digital centralizado pela Associação Brasileira de Recursos em Telecomunicações (ABR Telecom), que reúne informações das operadoras. Quando a chamada começa, o sistema compara os dados da empresa com os registros da operadora. Se houver correspondência, a ligação é autenticada e ganha o selo. Veja mais: Como o WhatsApp Web virou porta de entrada para ataque hacker com foco no Brasil Brecha permitiu espionar usuários do WhatsApp com versões desatualizadas do aplicativo 🔒 Qual a diferença para o sistema Origem Verificada? Fim das robocalls? Veja se seu celular é compatível com ferramenta contra golpes A autenticação é a primeira etapa de um projeto maior de segurança da Anatel contra fraudes telefônicas: o Origem Verificada. ➡️Mas, diferente da autenticação, nenhuma empresa é obrigada a adotar esse sistema. No Origem Verificada, além do selo de verificação e do número de telefone, as ligações de empresas participantes poderão mostrar também: Nome e logotipo da empresa; Motivo da ligação; Mensagem de número validado (veja na imagem abaixo). A quantidade de informações mostradas com o Origem Verificada vai depender de fatores técnicos como o modelo de celular. Veja se o seu celular é compatível. Como são as chamadas com o Origem Verificada g1 Veja mais: Os golpes virtuais que mais fazem os brasileiros perder dinheiro 'Eram meu rosto e minha voz, mas era golpe': como criminosos 'clonam pessoas' com inteligência artificial Ataque no WhatsApp pode roubar senhas de usuários; veja como se proteger

OpenAI suspende geração de vídeos de Martin Luther King após usuários criarem conteúdo desrespeitoso


Conheça o Sora, gerador de vídeos realistas da dona do ChatGPT A OpenAI, criadora do ChatGPT, suspendeu a criação de vídeos com a imagem de Martin Luther King Jr. na plataforma Sora. A empresa disse que alguns usuários criaram conteúdo desrespeitoso com a figura do ativista por direitos civis nos Estados Unidos. O Sora usa inteligência artificial para interpretar comandos em texto e criar vídeos. Ele ficou mais acessível após o lançamento no fim de setembro de um aplicativo para Android e iPhone – o app não foi lançado no Brasil. Os vídeos com a imagem de King incluem cenas que simulam o ativista fazendo sons de macaco durante seu famoso discurso "Eu tenho um sonho" e provocando adversários em um ringue de luta livre, segundo o jornal The Washington Post. Marting Luther King Jr. durante discurso "Eu tenho um sonho', em 1963, e em vídeo gerado com inteligência artificial Rowland Scherman/Wikimedia Commons; Reprodução A decisão de suspender a representação de King foi tomada a pedido da filha do ativista, Berenice A. King, em nome do espólio do líder negro americano. "Embora haja fortes interesses de liberdade de expressão na representação de figuras históricas, a OpenAI acredita que figuras públicas e suas famílias devem, em última instância, ter controle sobre como sua imagem é usada", disse a OpenAI, em comunicado divulgado na noite de quinta-feira (16). No início de outubro, Berenice A. King apoiou a filha de Robin Williams, que pediu para fãs deixarem de mandar vídeos de IA com a imagem do pai. "Concordo com relação ao meu pai. Por favor, parem", disse a filha de King. O Sora também foi usado para gerar vídeos de figuras como a cantora Whitney Houston e o ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy, além de conteúdos protegidos por direitos autorais como Pokémon e Bob Esponja. DeepSeek, ChatGPT e Gemini: qual é a melhor inteligência artificial?

China desenvolve sistema de vigilância para monitorar estrangeiros no país

Captura de tela de um painel de software de vigilância que permite monitorar estrangeiros NetAskari Quando um pesquisador de ciberse...