segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Musk X Moraes: ‘Há erros dos dois lados que estão se retroalimentando’, avalia professor da USP


Pablo Ortellado avalia que conduta de ministro do STF foi arrogante na condução de inquéritos. E ele considera que Musk agiu com desrespeito à legislação brasileira e que bloqueio do X se tornou inevitável. Elon Musk e Aleandre de Moraes EVARISTO SA, ETIENNE LAURENT / AFP “Há erros dos dois lados que estão se retroalimentando”, afirma Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas na USP, sobre o imbróglio entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o bilionário Elon Musk. Na sexta-feira (30/8), Moraes suspendeu o X (antigo Twitter), que pertence a Musk desde outubro de 2022, em todo o Brasil. O STF havia determinado que o bilionário nomeasse um representante legal no Brasil e cumprisse uma série de ordens de bloqueio de conteúdo e usuários. Mas Musk se recusa a acatar os pedidos, sob o argumento de liberdade de expressão e acusa o judiciário brasileiro de ser uma ameaça à democracia. Moraes aponta que "Musk confunde liberdade de expressão com uma inexistente liberdade de agressão". O ministro afirma que a postura adotada por Musk incentiva discursos extremistas e antidemocráticos. Logo após a suspensão da rede, Musk reagiu em sua conta no X. Ele disse que “a liberdade de expressão é a base da democracia e um pseudo-juiz não eleito no Brasil está destruindo-a para fins políticos”. STF começa a julgar suspensão do X Saiba como fazer download de fotos, mensagens e seguidores no X Entenda em 5 pontos a decisão de Moraes Professor da USP, Pablo Ortellado afirma que há erros dos dois lados no embate entre Elon Musk e o ministro Alexandre de Moraes Reprodução/USP Para Ortellado, a suspensão da rede foi “inevitável”, porque considera que a postura de Musk ao desobedecer pedidos judiciais foi uma “afronta à Justiça”. Mas o professor da USP critica o modo como o ministro do STF conduz os inquéritos dos movimentos antidemocráticos, principalmente na parte em que trata sobre as publicações de conteúdos nas redes sociais como o X. “Acho que a maneira como o Moraes está conduzindo tudo isso é arrogante. Existem poderes excepcionais que não se justificam nessas ações”, diz. Ortellado se refere principalmente a diversos pedidos de Moraes para derrubar perfis na plataforma de Musk. “Pedir para retirar uma conta por causa de uma publicação é uma censura prévia”, avalia. O STF disse em nota à BBC News Brasil que não irá comentar as críticas de Ortellado. O X também foi procurado e não respondeu aos questionamentos. Moraes X Musk O embate entre Moraes e Musk prejudica a democracia brasileira, aponta Ortellado. “É uma disputa que está tão polarizada que as pessoas estão tendo dificuldades para encontrar as nuances. O pessoal que vê a postura de Musk com preocupação tende a justificar todas as medidas de Moraes e vice-versa”, acrescenta. Sobre a conduta de Moraes nos inquéritos antidemocráticos, que apuram a disseminação de fake news, milícias digitais e atos golpistas, Ortellado argumenta que a exclusão de perfis por causa de uma publicação pode ser considerada uma medida abusiva. “Antes da crise do Bolsonaro, havia um entendimento consolidado de que se havia uma publicação ilícita, era preciso ir à Justiça e a publicação era excluída e poderia haver outras implicações jurídicas a partir dela, até mesmo criminais. Mas o perfil não era excluído, porque isso seria partir do entendimento de que se a pessoa fez aquela publicação fará outra igual no futuro. Isso é censura prévia, é completamente abusivo”, diz. Ortellado, estudioso sobre o bolsonarismo, explica que esse entendimento mudou por causa dos constantes ataques à democracia e dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. “Diante de tudo isso, começou a pedir a suspensão das contas. Naquelas circunstâncias, honestamente, esses pedidos eram justificáveis porque havia uma campanha organizada para desestabilizar a democracia brasileira e havia contas fazendo múltiplas postagens por dia. A Justiça não dava conta de excluir só uma postagem, seria enxugar gelo.” No entanto, segundo o professor da USP, esses pedidos para excluir perfis continuaram, mesmo após as investigações e prisões dos envolvidos nos atos antidemocráticos de janeiro de 2023. “As pessoas foram identificadas, as prisões foram feitas, houve trabalho da Polícia Federal e todo mundo foi indiciado. Não havia mais motivos para continuarem excluindo contas. Deveriam ter regredido ao entendimento anterior, de que fazer isso é censura prévia”, afirma. Ortellado frisa que os inquéritos antidemocráticos tramitam em segredo e as decisões de Moraes sobre as exclusões dos perfis não costumam ser publicizadas, o que dificulta o entendimento sobre as motivações das medidas tomadas pelo ministro. “As pessoas que são alvos desses inquéritos dizem que não são notificadas para que possam se defender. Mas claro, é preciso tomar cuidado, porque as partes que estão sofrendo isso são politicamente motivadas, mas está tudo em segredo de Justiça”, diz. Sem detalhamentos do STF, Ortellado frisa que muitos podem se apegar ao que é dito por Musk, que classifica Moraes como um ditador que quer excluir os perfis de seus opositores. “Mas o Musk é politicamente motivado. Não acredito que ele seja defensor da liberdade de expressão. Essa postura dele parece uma fachada, que depende do regime e do governo com o qual está lidando”, diz o professor da USP. Ortellado cita decisões judiciais na Índia e na Turquia em que Musk, apesar de uma resistência inicial, acolheu pedidos de exclusões de perfis no X por conteúdos considerados inapropriados. “Eu acho que ele (Musk) está fazendo isso politicamente motivado, atacando o governo de esquerda e a Justiça brasileira, que ele entende que está alinhada ao governo de esquerda.” As consequências do embate Ainda que questione a conduta de Moraes, Ortellado frisa que a postura de Musk não deixou outra alternativa que não fosse a suspensão da rede social. O professor pondera que o bilionário poderia questionar a conduta do ministro somente na Justiça, não por meio de publicações jocosas nas redes e descumprimento de decisões judiciais. “A maneira como o Musk agiu foi absurda e ilegal. Ele começou a desobedecer a decisão judicial, destituiu os representantes legais do X e começou a caçoar da Justiça. E a Justiça endureceu porque tinha que endurecer. Foi um absurdo, completamente moleque”, declara. “E a expectativa é de que por ele ter afrontado a Justiça e não ter seguido as leis brasileiras, não há chances de que um recurso dele (contra o bloqueio do X) seja favorável neste momento, porque senão vai parecer que os juízes respaldam alguém que está afrontando a Justiça brasileira”. “Tudo o que vem da Justiça depois dessa postura dele, como a proibição do X no Brasil, é completamente razoável.” Ele aponta que todo esse imbróglio causará prejuízos para a plataforma do bilionário, já que o Brasil é o sexto maior mercado do X no mundo. Segundo a plataforma global de dados e estatísticas Statista, o país tinha 21,5 milhões de usuários da rede, ficando atrás de EUA, Japão, Índia, Indonésia e Reino Unido. “Mesmo para alguém que tem muito dinheiro, isso não é algo inexpressivo. Não é pouca coisa que ele está jogando fora. Talvez ele esteja medindo força para ver até onde o Alexandre de Moraes vai, mas isso causa várias implicações pro Musk, uma das principais é a financeira, porque ele está perdendo muito dinheiro”, avalia. Os problemas de Musk com a Justiça brasileira, segundo Ortellado, acenderam um alerta em todo o mundo. “Não existe uma percepção mundial de que o Brasil se juntou a países como a China, a Rússia e o Irã ao suspender o X. A percepção é de que o X foi proibido em um país democrático, porque ele desafiou a justiça local. Uma coisa é a rede ser banida em um país autoritário, outra coisa é em um país democrático”., diz. “Isso deve ter repercussão no ambiente regulatório de todos os países, inclusive nos Estados Unidos, onde sabem da relação próxima entre Musk e Trump (candidato à presidência) e já podem imaginar algo semelhante ocorrendo”, acrescenta. Mas a Justiça brasileira também deve sentir as consequências do episódio com Musk, avalia Ortellado. Ele aponta que faltou detalhamento à população sobre os pedidos de derrubada dos perfis, além de as notificações ao X sobre a possível suspensão da plataforma não terem sido divulgadas abertamente com antecedência. “O STF se sente respaldado porque muitas pessoas têm receios e dedos de fazer críticas a ele, dado ao papel fundamental que teve para assegurar a democracia.” “Acontece que manter esses poderes excepcionais em situações em que não se justifica faz com que o STF perca a legitimidade na sociedade brasileira. Me preocupa que um Supremo não tenha a confiança de 40% da sociedade brasileira”, diz. Ortellado se refere à pesquisa “A Cara da Democracia”, do Instituto da Democracia (IDDC-INCT), deste ano. O levantamento revelou que o STF desperta “muita confiança” em 15% das pessoas, enquanto 45% afirmam confiar "mais ou menos" ou "pouco". Já os que não confiam são 37% – o índice chegou a 43% em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, que proferia inúmeros ataques à Corte. “O Supremo precisa resgatar a legitimidade com os brasileiros. É preciso que essa máquina volte a funcionar de maneira mais normal para que as pessoas resgatem a confiança na Justiça”, afirma Ortellado. Moraes suspendeu Telegram em 2022 e empresa pediu desculpas para voltar a operar no Brasil Bloqueio do X pode alimentar ato bolsonarista no 7 de setembro, diz consultoria 5 perguntas para entender embate entre Elon Musk e Alexandre de Moraes

domingo, 1 de setembro de 2024

Starlink informa ao presidente da Anatel que não vai cumprir decisão de Moraes sobre suspensão do X

Comunicado foi feito informalmente, por mensagem, neste domingo. Segundo Carlos Baigorri, a empresa disse que só irá suspender acesso dos usuários se recursos forem desbloqueados pela Justiça. O presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Carlos Baigorri, afirmou neste domingo (1º) que a empresa Starlink comunicou a ele que não vai cumprir a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Frederal (STF), de suspender o acesso de seus usuários à rede social X. A Starlink avisou a Anatel de que não vai cumprir a ordem até que as contas da empresa, bloqueadas também por determinação do ministro, sejam desbloqueadas pela Justiça. Procurada, a defesa da Starlink disse que não vai se manifestar. A Starlink é uma provedora de internet por satélite, e tem mais de 200 mil usuários no Brasil. Até a última atualização desta reportagem, a empresa não havia suspendido o acesso à rede social X para esses usuários. Tanto o X quanto a Starlink são empresas do bilionário do Vale do Silício Elon Musk, que é alvo de inquéritos no STF relatados por Alexandre de Moraes. Desde abril, Musk vem descumprindo decisões judiciais ao não bloquear perfis que disseminam desinformação e ataques às instituições democráticas. Além disso, não paga multas impostas pelo Supremo. Como forma de garantir o pagamento dessas multas, na última semana, Alexandre de Moraes determinou o bloqueio das contas da Starlink, por entender que a empresa e a rede social X operam como um mesmo grupo econômico. Essa decisão é criticada por especialistas em Direito (veja mais abaixo). Agora, a Starlink está condicionando o corte do acesso ao X à suspensão do bloqueio de suas contas, segundo a Anatel. "A gente recebeu a informação de que a Starlink não estaria bloqueando o acesso à plataforma X. Ao longo do dia entrei em contato com os advogados da Starlink perante a Anatel, e o que nos foi informado agora, ao longo da tarde, é que a Starlink não iria bloquear o acesso ao X enquanto não fossem liberados os recursos bloqueados pela Justiça associados a Starlink", afirmou Baigorri à TV Globo. Ele ainda disse que já avisou o STF sobre esse posicionamento da provedora de internet. "Essa informação, assim que a gente recebeu, já encaminhamos ao ministro Alexandre de Moraes para que ele tome as medidas que entender cabíveis", concluiu o presidente da Anatel. O STF também disse que não vai se manifestar oficialmente. Segundo Baigorri, todas as mais de 20 mil operadoras de telecomunicações do país foram notificadas da decisão de suspender o X. O presidente da Anatel garantiu que a maioria delas já bloqueou o acesso à rede social. Questionado sobre quais medidas poderiam ser tomadas se ficar confirmado que a Starlink está descumprindo deliberadamente a decisão do ministro Alexandre de Moraes, o presidente da Anatel respondeu: "Importante destacar que essa informação nos foi passada informalmente ainda. Vamos aguardar pra ver se eles formalizam isso nos autos [do processo]. Mas o que eu posso dizer é que a sanção máxima prevista pra uma empresa de telecomunicações é a cassação da outorga. Uma vez que tenha a cassação da outorga, por exemplo, no caso da Starlink, hipoteticamente, ela não poderá mais prestar o serviço de telecomunicações no Brasil", disse Carlos Baigorri. Suspensão do X no Brasil O X está suspenso no Brasil desde a noite de sexta-feira (30), por ordem de Moraes. A suspensão do X foi determinada até a rede cumprir ordens judiciais, pagar multas e indicar um representante no país. O X fechou o escritório no Brasil no dia 17 de agosto, alegando que Moraes ameaçou prender a então representante legal da empresa no país em caso de descumprimento de ordens judiciais. O X disse que essa ameaça foi feita em decisões sigilosas, que ainda não se tornaram de conhecimento público. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começará a julgar na madrugada desta segunda-feira (2) se confirma ou não a decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu o funcionamento da rede social X no Brasil. Bloqueio das contas da Starlink Diante da falta de um representante legal da rede social X no Brasil, o ministro Moraes bloqueou contas da empresa Starlink Holding, que também pertence ao bilionário Elon Musk. Em postagem no X, a empresa chamou as decisões de Moraes contra a rede social de "inconstitucionais" e alegou que pretende recorrer na Justiça. O próprio Elon Musk também se manifestou no próprio perfil, alegando que a SpaceX — da Starlink — e o X (antigo Twitter) são duas empresas "completamente diferentes, com acionistas diferentes". Ele afirmou que possui 40% da empresa. "Então, essa ação absolutamente ilegal do ditador Alexandre de Moraes pune indevidamente outros acionistas e o povo brasileiro", escreveu. Especialistas ouvidos pelo g1 e pela TV Globo criticaram a medida de Moraes sobre a Starlink. "Essa decisão foge um pouco do padrão de intimações e de determinações que o Poder Judiciário brasileiro, especialmente o STF, realiza quando intima as partes a respeito da tomada de decisões", diz Clóvis Bertolini, mestre em direito pela Universidade de São Paulo e professor da PUC Minas.

Primeira Turma do STF começa a julgar nesta segunda decisão de Moraes que suspendeu X no Brasil

Ministros vão decidir se mantém ou não a ordem de bloqueio da plataforma até pagamento de multas e indicação de representante no Brasil. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar na madrugada desta segunda-feira (2) se confirma ou não a decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu o funcionamento do X no Brasil (leia mais abaixo). O julgamento será no plenário virtual do STF e os ministros terão até 23h59 do mesmo dia (segunda) para inserirem os votos no sistema eletrônico. Além de Moraes, também votam os ministros Cármen Lúcia, Luiz Fux, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Rede X já não está mais disponível para a maioria dos brasileiros, diz Anatel Desde abril, o bilionário Elon Musk, dono do X, tem descumprido várias ordens do ministro Alexandre de Moraes de bloquear contas de investigados pelo STF, acusados de afrontar a democracia e a legislação brasileira. Musk também não pagou as multas, que somam, até agora, R$ 18,35 milhões por descumprir ordens judiciais. O dono do X postou imagens com sátiras ao ministro no próprio X e acabou incluído como investigado no inquérito das milícias digitais, do qual Moraes é relator. A suspensão do X foi determinada até a rede cumprir ordens judiciais, pagar multas e indicar um representante no país. Na decisão desta sexta-feira (30), o ministro disse que, quando intimada, a referida plataforma incorreu em desobediência judicial e resolveu, criminosamente, divulgar mensagem incitando o ódio contra a Suprema Corte. Moraes afirmou ainda que Elon Musk confunde liberdade de expressão com uma inexistente liberdade de agressão, confunde deliberadamente censura com proibição constitucional ao discurso de ódio e de incitação a atos antidemocráticos. O ministro disse ainda que "a instrumentalização criminosa de diversas redes sociais, em especial a rede X, também vem sendo investigada em outros países”. E citou um trecho do parecer do Procurador-geral Paulo Gonet, que concordou com a decisão de suspender o X. Gonet lembrou que o empresário Elon Musk tem cumprido centenas de ordens de remoção de conteúdo vindas dos governos da Índia e da Turquia. No despacho desta sexta-feira (30), Alexandre de Moraes afirmou ainda que houve"reiterados, conscientes e voluntários descumprimentos das ordens judiciais e inadimplemento das multas diárias aplicadas, além da tentativa de não se submeter ao ordenamento jurídico e Poder Judiciário brasileiros, para instituir um ambiente de total impunidade e 'terra sem lei' nas redes sociais brasileiras, inclusive durante as eleições municipais de 2024”. - Esta reportagem está em atualização

Musk aceitou bloquear contas no X na Turquia e na Índia: por que no Brasil foi diferente?


Especialistas apontam que Musk teria razões políticas e econômicas para acatar decisões de outros países e descumpri-las-las no Brasil Elon Musk Gonzalo Fuentes/Reuters via BBC A batalha jurídica entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a rede social X e seu dono, o bilionário Elon Musk, teve como ápice a derrubada da plataforma no Brasil desde as primeiras horas do sábado (31/8). De um lado, o STF determinou que a empresa nomeasse um representante legal no Brasil e que acatasse a uma série de ordens relativas ao bloqueio de conteúdo e usuários. Do outro, Musk vem se recusando a acatar as ordens e acusa o judiciário brasileiro de ser uma ameaça à democracia. Entenda em 5 pontos a decisão de Moraes de bloquear o X e o que acontece agora Ministros do STF defendem que Moraes submeta decisão que suspendeu X à análise da Corte Musk vem repetindo que sua determinação em não cumprir as ordens do STF fazem parte de sua defesa à liberdade de expressão. Por outro lado, o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela ordem que suspendeu o X no Brasil, argumenta que "Elon Musk confunde liberdade de expressão com uma inexistente liberdade de agressão". Mas disputas envolvendo ordens para bloqueio de conteúdo não são novidade para o X e nem para Musk, mas pelo menos dois casos semelhantes tiveram desfechos bastante diferentes. Na Índia e na Turquia, por exemplo, autoridades determinaram a derrubada de perfis e conteúdo considerado inapropriado e, apesar de uma resistência inicial, o X acabou cumprindo as determinações. O fato de o desfecho nestes países ter sido diferente, embora a situação fosse parecida levou à questão: por que Musk acatou ordens na Turquia e na Índia, mas faz questão de descumprí-las no Brasil? A BBC News Brasil ouviu especialistas em mídia, direito e democracia para ajudar a responder esta questão. Eles argumentam que, Musk adota esta postura no Brasil por uma conjunção de fatores, entre eles, o apoio que ele tem por parte da direita brasileira, especialmente aquela que orbita em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Eles argumentam que essa proximidade cria condições para que Musk desafie o STF na medida em que oferece suporte político para essa postura. Os especialistas apontam ainda que, apesar de Musk se colocar como defensor do direito à liberdade de expressão, na prática, ele concilia essa suposta bandeira com seus interesses econômicos ao ponto de não hesitar em manter negócios bilionários com países considerados por eles como autoritários, a exemplo da China e da Arábia Saudita. Narendra Modi é considerado um dos primeiros-ministros mais poderosos da Índia desde a independência do país Reuters via BBC Índia: "Batida", bloqueios e promessas Em 2021, antes de Musk comprar a plataforma, o então Twitter iniciou uma batalha legal com o governo indiano liderada pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Em meio ao embate, a polícia indiana chegou a dar uma batida em escritórios da empresa no país. No centro dessa disputa estavam as demandas do governo indiano para que o Twitter bloqueasse uma série de perfis vinculados a protestos massivos de fazendeiros contra o governo de Modi. Nos últimos anos, o governo de Naredra Modi vem sendo acusado por organizações não-governamentais que atuam na defesa dos direitos humanos de adotar políticas discriminatórias contra minorias étnicas no país e de tomar medidas para silenciar oposicionistas. O governo indiano, então, pediu ao Twitter para remover tweets que usavam uma hashtag considerada "incendiária" e contas usadas por grupos separatistas da etnia sikh e supostamente apoiadas pelo Paquistão. Na ocasião, o Twitter bloqueou cerca de 250 contas em resposta a uma notificação legal do governo, mas seis horas depois, restabeleceu os perfis. Em 2022, ainda antes da compra da plataforma por Musk, o Twitter deu início a uma ação contra as demandas do governo indiano para a remoção de perfis e conteúdo sob o argumento de que eles representavam uma ameaça à "ordem pública". Na época, a então direção do Twitter contra-argumentou afirmando que alguns dos pedidos para bloqueio de contas e remoção de conteúdo violavam direitos básicos como a liberdade de expressão. Em fevereiro de 2024, porém, após a compra do Twitter por Musk, a plataforma acatou às decisões do governo indiano e admitiu ter bloqueado uma série de contas ligadas a manifestantes contrários ao governo. "Em cumprimento às ordens, nós vamos bloquear essas contas e postagens apenas na Índia, entretanto, nós discordamos com essas ações e mantemos que a liberdade de expressão deveria ser estendida a estas postagens", disse uma nota divulgada pela empresa na época. E apesar de o X ter acatado as decisões do governo indiano, Elon Musk, parabenizou Modi por sua vitória nas eleições gerais deste ano. "Parabéns, Narendra Modi por sua vitória nas eleições da maior democracia do mundo. Estou ansioso para ver minhas companhias fazendo um trabalho emocionante na Índia", disse Musk em seu perfil no X. Nos últimos meses, especulou-se a possibilidade de que Musk poderia fazer um investimento bilionário para a construção de uma mega-fábrica de baterias da Tesla, sua empresa de carros elétricos na Índia. Uma visita de Musk ao país chegou a ser cogitada, mas foi cancelada pouco antes de sua realização. Em maio, foi anunciado que a fábrica será construída na China, onde Musk já fabrica carros da Tesla e onde o X não é permitido. Recep Tayyip Erdogan foi reeleito primeiro-ministro da Turquia em maio de 2023 Getty Images via BBC Bloqueios de um lado, visita amistosa de outro Em maio de 2023, já sob o comando de Musk, o X e Elon Musk foram criticados por ter acatado as determinações do governo turco, liderado por Recep Tayyip Erdoğan, para derrubar contas e postagens de personalidades ligadas à oposição no país. Em nota, divulgada na época, o X admitiu que cumpriria as ordens. "Em resposta a um processo legal e para assegurar que o Twitter permanece disponível para as pessoas na Turquia, nós tomamos medidas para restringir o acesso a algum conteúdo na Turquia hoje", disse uma nota da equipe de Assuntos Globais do X, na época. Apesar de se auto-proclamar como um "absolutista defensor da liberdade de expressão", Musk reagiu ao ser criticado pela postura adotada pela companhia na ocasião. "A escolha é ter o Twitter totalmente limitado ou limitar o acesso a alguns tweets. Qual você quer?", disse Musk em seu perfil no X. As determinações do governo turco para a derrubada de conteúdo no X não impediram, porém, que Musk tivesse um encontro com o primeiro-ministro turco quatro meses depois. Em setembro de 2023, os dois se encontraram em Nova Iorque, durante a passagem de Erdogan pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O encontro amistoso contou até com a presença de um de seus filhos e com o pedido de Erdogan para que Musk construísse uma fábrica da Tesla em seu país. "Hipocrisia" e ligação com direita Para especialistas em mídia e relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil, o argumento de Musk para descumprir as ordens do STF no Brasil ao ponto de levar à derrubada da plataforma no país não se sustenta. Segundo eles, Musk estaria sendo "hipócrita" e agiria baseado em interesses políticos e econômicos. "É hipocrisia Musk afirmar que desafia as ordens do STF por defender a liberdade de expressão, mas acatar ordens semelhantes em outros países. Além disso, como pode um defensor tão ferrenho da liberdade de expressão simplesmente silenciar sobre o fato de o X não ser permitido em países como a China, onde ele tem negócios?", disse à BBC News Brasil o especialista em antropologia da tecnologia e professor da Universidade da Virginia, David Nemer. Segundo ele, Musk só teria "esticado a corda" no Brasil por contar com apoio de parte expressiva da direita brasileira. "Ele tem o apoio de figuras importantes da direita brasileira como o ex-presidente Jair Bolsonaro, e muitos outros parlamentares que, agora, estão criticando a decisão. Esse suporte político dá a ele a liberdade de contestar as ordens do Supremo no Brasil e, ao mesmo tempo, ajuda a desgastar a credibilidade da instituição no país", disse Nemer. Na semana passada, políticos de direita no Brasil como o senador e filho de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltaram a defender o impeachment de Alexandre de Moraes. Nemer pontua ainda que Turquia e Índia são países importantes nas estratégias de negócios de Musk. A Turquia é um dos países mais populosos da Europa e também tem ligações com o continente asiático, já que a maior parte do seu território se localiza na Ásia. A Índia, por outro lado, é o país mais populoso do mundo e é uma das maiores economias no mundo, neste momento. Além do potencial como mercado consumidor, a Índia desponta como um possível local onde Musk pode instalar fábricas da Tesla. O professor de Estudos Brasileiros na Universidade de Oklahoma Fábio de Sá e Silva tem uma avaliação semelhante à de Nemer. "O que ele faz é um uso oportunista e a la carte do argumento de liberdade de expressão quando esse argumento casa bem com os interesses econômicos e políticos dele em cada país", disse o professor à BBC News Brasil. Silva afirma que o comportamento de Musk em torno da liberdade de expressão muda de acordo com seus interesses empresariais. "Ele não é sincero e honesto quando diz ser um defensor da liberdade absoluta de expressão, já que convive bem com restrições desses regimes autoritários [...] Índia, Turquia, China e Arábia Saudita são fontes de recursos importantes para os projetos dele, tanto na condição de mercados relevantes, como também na condição de fontes de investimento", afirmou Silva. O professor diz que, além dos interesses comerciais, o que explicaria a adoção de comportamentos diferentes diante de situações parecidas de Musk seria o seu alinhamento político atual. "No caso brasileiro, parece haver uma proximidade entre Musk e a extrema direita. Ele foi condecorado por Bolsonaro e a agenda da liberdade absoluta de expressão, embora não tenha respaldo na Constituição de 1988, foi encampada pela nossa extrema direita", afirmou. Segundo ele, Musk ajusta seus interesses políticos aos seus interesses econômicos. "É um alinhamento político, mas que também casa com os interesses econômicos dele de poder operar sem restrições em mercados democráticos, ao mesmo tempo em que faz as acomodações necessárias em contextos autoritários", explicou. A BBC News Brasil enviou questionamentos à assessoria do X, mas nenhuma resposta foi enviada. Rede X já não está mais disponível para a maioria dos brasileiros, diz Anatel

Como celulares podem detectar terremotos


Cinquenta anos após a primeira chamada de celular, tecnologia que transportamos no bolso está ajudando a criar maior sistema de detecção de terremotos do mundo. Smartphones possuem sensores embutidos que podem funcionar como sismômetros para detectar terremotos Getty Images Em 25 de outubro de 2022, um terremoto com 5,1 graus de magnitude sacudiu a região da Baía da Califórnia, nos Estados Unidos. Felizmente, foi mais uma trepidação do que um tremor violento. Mas muitas informações dos moradores da região atingida chegaram ao Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês). Como funciona a tecnologia do celular que notificou tremor de terra em SP Não foram relatados danos, mas o terremoto foi significativo por outra razão. Muitas pessoas da região receberam alertas nos seus telefones celulares antes que os tremores começassem. Avisos similares sobre um terremoto com 5,2 graus de magnitude, com epicentro ao sul da cidade de Bakersfield, chegaram aos moradores do sul da Califórnia com até 30 segundos de antecedência, na noite de 6 de agosto de 2024. O mais importante é que muitos desses telefones também ajudaram a detectar o terremoto antes que ele acontecesse. A Google vem trabalhando em conjunto com o USGS e acadêmicos de diversas universidades da Califórnia para desenvolver um sistema de alerta precoce que avise os usuários poucos segundos antes da chegada dos tremores. A janela de alerta é curta, mas até mesmo alguns segundos podem oferecer tempo suficiente para que as pessoas possam buscar abrigo embaixo de uma mesa ou de um balcão. E também pode ser suficiente para reduzir a velocidade dos trens, evitar a decolagem ou aterrissagem de aviões e evitar que carros entrem em pontes ou túneis. Com isso, o sistema poderá salvar vidas, no caso de terremotos mais potentes. Os dados vêm de duas fontes. Inicialmente, o sistema contava com uma rede de 700 sismômetros — aparelhos que detectam os tremores de terra — instalados em todo o Estado pelos sismólogos do USGS, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, da Universidade da Califórnia em Berkeley e do governo estadual. Sismômetros instalados em dois outros Estados americanos — Oregon e Washington — também enviam dados para o sistema, conhecido como ShakeAlert. Mas a Google está criando a maior rede de detecção de terremotos do mundo, com os telefones celulares dos usuários. A maioria dos smartphones que operam o sistema operacional Android possui acelerômetros embutidos — os circuitos que detectam os movimentos do celular. Estes circuitos costumam ser usados para instruir o telefone a reorientar a sua tela entre os formatos de retrato e paisagem quando o aparelho é inclinado, por exemplo. E também ajudam a fornecer informações sobre a contagem de passos para o rastreador de fitness embutido da Google. Mas os sensores são surpreendentemente sensíveis e também podem servir de minissismômetros. A Google introduziu uma função que permite aos usuários autorizar seus aparelhos a enviar dados automaticamente para o Sistema Android de Alertas de Terremotos, quando detectarem vibrações características das ondas primárias (P) dos terremotos. Combinando dados de milhares ou até milhões de outros celulares, o sistema pode deduzir se está acontecendo um terremoto e onde. Ele pode então enviar alertas para os telefones da região que provavelmente será atingida pelas ondas sísmicas, fornecendo um alerta precoce. E, como os sinais de rádio viajam com mais rapidez do que as ondas sísmicas, os alertas podem chegar antes do início dos tremores, em regiões distantes do epicentro. O engenheiro de software da Android, Marc Stogaitis, define o sistema da seguinte forma: "Essencialmente, estamos correndo à velocidade da luz (que é a velocidade aproximada em que viajam os sinais de telefone) contra a velocidade do terremoto. E, para nossa sorte, a velocidade da luz é muito maior!" Como a maioria dos dados é coletada de forma colaborativa, a tecnologia abre a possibilidade de monitorar terremotos em áreas onde não existem extensas redes de sismômetros de alto custo. Ou seja, ela aumenta a possibilidade de fornecer alertas de terremotos até mesmo nas regiões mais pobres e remotas do planeta. Em outubro de 2022, os engenheiros da Google viram telefones celulares em toda a área da Baía de São Francisco se acenderem com os dados de detecção de terremotos, enquanto as ondas sísmicas viajavam para longe do epicentro. Agora, o sistema capta regularmente esses abalos para que o ShakeAlert do USGS possa emitir alertas quando eles ultrapassarem certos limites. Ele dispara mensagens para os telefones celulares dos usuários em regiões que provavelmente serão atingidas pelos tremores. Embora os alertas possam ser recebidos em telefones com o sistema Android, as pessoas da Califórnia, Oregon e Washington também podem usar o aplicativo MyShake, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Berkeley. Ele também transforma os celulares dos usuários em detectores de terremotos quando estão estacionários e envia alertas, com base na localização do aparelho. Os terremotos ocorrem com frequência na Califórnia. O Estado sofre até 10 pequenos tremores todos os dias. Em sua maioria, eles são muito fracos para serem sentidos pelas pessoas. Mas existem normalmente diversos terremotos maiores na Califórnia todos os anos. São cerca de 15 a 20 tremores com mais de 4,0 graus de magnitude. Globalmente falando, estima-se que sejam usados 16 bilhões de telefones celulares em todo o mundo e mais de três bilhões deles usam o sistema operacional Android. O Sistema de Alerta de Terremotos já está disponível em mais de 90 países particularmente propensos a tremores. Mas o sistema também tem suas limitações, particularmente em áreas remotas, onde há poucos usuários de celulares, e em terremotos que ocorrem no mar, que podem gerar tsunamis. Embora estes sistemas possam emitir alertas com alguns segundos de antecedência, a previsão de terremotos antes que eles aconteçam permanece um objetivo inatingível. Como ativar os alertas de terremotos no celular As configurações para ativar os alertas de terremotos em telefones celulares que usam o sistema operacional Android podem ser encontradas na seção de Segurança e Emergência do aplicativo de Configurações do seu telefone. O sistema exige acesso à internet por wi-fi ou dados móveis. Os proprietários de iPhones no Japão também podem ativar os alertas de emergência na seção de notificações das configurações dos seus aparelhos. LEIA TAMBÉM: A rede social que conseguiu um milhão de usuários e bateu recordes de interações após bloqueio do X no Brasil Além do X, WhatsApp e Telegram já foram suspensos antes no Brasil; relembre Como uma rede social deixa de funcionar no Brasil? Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation. Como o Instagram tem sido cada vez mais usado como Tinder Como o Instagram tem sido cada vez mais usado como Tinder Lives do jogo do tigrinho, surgem em canais de YouTube sobre culinária e jogos infantis Lives do jogo do tigrinho, surgem em canais de YouTube sobre culinária e jogos infantis O que são os supertênis, armas para atletas profissionais e amadores 'voarem' O que são os supertênis, armas para atletas profissionais e amadores 'voarem'

Publicar no feed é 'coisa de velho'? E não ter foto de perfil? Post de professor viraliza e gera debate sobre comportamento nas redes


Professor fez uma pesquisa, sem valor científico, com alunos da rede pública. Lecionando para adolescentes de 13 a 17 anos, ele começou a perceber que, fora da sala de aula, era constantemente adicionado, no Instagram, por contas sem fotos. Imagem ilustrativa mostra a sombra de duas pessoas meendo no celular e o logo do Instagram ao fundo Reuters Victor Hugo é professor de história, sociologia e filosofia da rede pública em Bebedouro (SP). Aos 26 anos, ele usa redes sociais como um típico jovem adulto. Seu perfil tem fotos de viagens, de shows, de momentos com amigos, selfies... 👨‍🏫 Lecionando para adolescentes de 13 a 17 anos, ele começou a perceber que, fora da sala de aula, era constantemente adicionado, no Instagram, por contas sem fotos e, algumas vezes, até sem informações básicas de identificação -- muitas tinham letras ou números aleatórios no nome. ☝️ Mas quem estava por trás destes perfis misteriosos não era bem um segredo... "Eu ficava tentando entender o que era, quem era... Eu buscava e descobria que era um aluno meu. Eles próprios geralmente falavam: 'ah, você viu que eu te segui?' Isso foi me impressionando", disse Victor em entrevista ao g1. 🤔 Essa percepção provocou o professor, que decidiu fazer uma pesquisa, sem valor científico, com os próprios alunos — o resultado viralizou na rede social X. Mas antes de prosseguir, é importante ressaltar: Quem tem de 13 a 17 anos pertence à geração Z; O próprio Victor é geração Z, ainda que quase beirando a anterior, a chamada geração Y (ou millennials); A idade mínima para ter uma conta no Instagram no Brasil é de 13 anos. "A geração Z é considerada nativa digital. É a primeira geração que nasceu que não sabe o que é a vida antes da internet. E isso, por si só, já influencia a maioria das características dessa geração", explicou Thaís Giuliani, doutora em ciências da informação e especialista em geração Z. As perguntas feitas por Victor aos seus alunos foram: Por que não postam fotos no feed do Instagram? Por que dificilmente colocam foto no perfil? Por que postam só nos stories? O que acham de quem posta conteúdo frequentemente? Se acham bonitos/seguros para compartilharem fotos nas redes sociais? Initial plugin text 📣 Aqui vale um alerta: não existe uma resposta exata para a pergunta do título deste texto. É mais uma provocação, um convite à reflexão, do que um guia com um resultado detalhado. As respostas foram diversas. Veja só algumas delas: têm os que acham "cringe" ter foto no perfil; têm os que dizem que "está na moda ser 'low profile' (postar pouco); têm os acham que quem posta frequentemente "é desocupado e brega"; têm também aqueles que admitem insegurança com a aparência mesmo (não encontrar uma foto "boa" e ter medo de não ter muitas curtidas foram argumentos que apareceram entre as respostas). Ao g1, Victor disse que se surpreendeu com o resultado. "Primeiro, eu acho que eu banalizei, talvez eu tenha achado que eles só não querem lidar com as redes sociais ou que, de alguma maneira, eles são contra. Talvez eu tenha achado que não tinha um problema por trás." Não bem um problema, mas, sim, tinha algo por trás. A conclusão, a partir dos dados preenchidos pelos alunos, foi postada no X: era, em grande parte, uma questão de autoestima. "As respostas reforçam questões atuais bem problemáticas sobre a autoestima e também sobre a própria padronização do corpo nas redes. Os mais novos sofrem mais com a autoestima e sentem mais medo em relação às redes. Todos se cobram", escreveu Victor. Para Giuliani, independente da geração que for, a questão da autoestima adolescente é um fator relevante nessa discussão. "Existe a questão da geração, que é o recorte do período que nasceu, porque são momentos históricos, políticos, sociais e econômicos completamente diferentes. E outra coisa é a adolescência. Que é uma fase normal de muito complexo em relação à autoestima, que eu acho que é uma das principais causas relacionadas a essa questão de foto, de imagem [das redes sociais]", afirmou Giuliani ao g1. De modo geral, mais que uma característica das gerações Z, X ou qualquer outra, para todos a adolescência é (ou foi) uma fase... de ebulição hormonal; de nascimento de pelos; de nascimento de espinhas; de mudanças na textura da pele; de mudanças no cabelo; e, principalmente, de mudanças no corpo como um todo (mais altos, mais largos, crescimento das mamas, mudança na voz...). A vida no Instagram (e antes dele) 🔙 Para contexto: o Instagram surgiu em 2010, em uma época em que estava disponível apenas para usuários iOS (iPhone) e levou uns anos até ser liberado para Android. Naquele momento, era uma rede só de fotos de celular de baixa qualidade, com filtros que mudavam as cores e a saturação, por exemplo — mas nada de recursos que afinam o nariz e aumentam os lábios, como vemos hoje. Também não tinha, ainda, a ferramenta stories, que veio em 2016, em que fotos e vídeos desaparecem após 24 horas. Publicar fotos nas redes sociais não é uma característica exclusiva do Instagram e da geração de agora. Antes, havia o finado Orkut, que durante muito tempo permitia apenas 12 fotos (mas que eram atualizadas sem receios entre adolescentes e adultos de diferentes gerações que usavam a rede). Depois, veio o Facebook, que permite ter diversos álbuns e muitas e muitas fotos (e que, hoje, em 2024, é quase nada usado pela geração Z, mas que por muito tempo foi a queridinha dos millenials depois do Orkut). Ainda assim... Por que os jovens de hoje, a geração Z, parecem evitar mais a exposição no Instagram? Como explica Giuliani, é uma geração que se preocupa com questões de saúde mental — para além de ser afetada diretamente por isso, muito por causa dos anos escolares durante a pandemia, quase que totalmente na frente de telas e câmeras abertas em aulas. Por isso, talvez, pode soar que eles se sintam mais inseguros com a aparência física típica da adolescência que antigamente (o que não existe uma comprovação clara ainda). E, além disso, é uma geração mais protegida. "É uma geração que tem uma uma fragilidade maior por diversos aspectos, não só pelas redes sociais, não só pela tecnologia, mas também muito pela forma como foram criados, num modelo em lidar com pouca frustração ao longo da infância e da adolescência, o que acabou, de certa forma, impactando negativamente nessa questão mais da formação da resiliência", diz Giuliani. E é importante também lembrar que as redes de antigamente não tinham os influenciadores de hoje com milhões de seguidores, vidas irreais e filtros que mudam o rosto para formatos milimetricamente perfeitos. Foto ilustrativa mostra Cara Delevingne e Sam Smith depois do Rock in Rio 2015; ne época, os filtros eram apenas de cor, luz e saturação. Reprodução/Instagram/Samsmith Quanto aos adolescentes da geração Z, eles até ocupam o Instagram, sim, mas sem aparecer tanto (como o observado na pesquisa do Victor, ainda que algumas vezes sem foto). Algo reforçado por Giuliani: eles não se exibem, mas falam, engajam. Ainda assim... Eles preferem mesmo o TikTok — e isso é geracional e típico do fluxo das redes, como aconteceu com o Orkut e o Facebook (uma vai substituindo outra na preferência). Olha só: uma pesquisa da Adobe de abril deste ano apontou que 64% dos jovens nascidos entre 1995 e 2010 já trocaram o Google pelo TikTok para fazer buscas. E os millenials? E quanto ao hábito de jovens (mais adultos) de postarem mais fotos de viagens e de comida? Bem... Talvez isso seja uma herança dos primórdios do Instagram (quando os adolescentes da vez, hoje adultos, estavam descobrindo as ferramentas que a rede dispunha). No começo da rede era comum (e cool) publicar fotos de fim de semana na balada, com amigos, em restaurantes diferentes e durante viagens. Vale lembrar: dividir esses momentos no online era bem mais difícil mesmo uns anos atrás, no começo do Instagram, com conexões menos acessíveis e quando tudo era mato na internet. "O millenial tem um comportamento um pouco diferente nas redes sociais do que da geração Z. Se a geração Z tem esse receio de exposição, toda aquela questão do aspecto da autoestima, ele gosta de ver, de olhar, mas muitas vezes não de se expor", avaliou Giuliani. "Eles são mais abertos pra isso, têm uma postura mais de compartilhar essas experiências, porque os valorizam muito a experiência. É a primeira geração que começa quando a gente fala de compra, de venda, de serviço do millenial como cliente, como consumidor. É a primeira geração que acaba valorizando muito essa questão da experiência da marca", finalizou Giuliani.

sábado, 31 de agosto de 2024

A rede social que conseguiu um milhão de usuários e bateu recordes de interações após bloqueio do X no Brasil


A plataforma informou que estava com uma alta taxa de crescimento de novos usuários ao longo dos últimos dias. Na sexta, o X foi suspenso no país por decisão do ministro Alexandre de Moraes. A Bluesky informou que estava com uma alta taxa de crescimento de novos usuários ao longo dos últimos dias. Reprodução/Via BBC A rede social BlueSky ganhou um milhão de novos usuários brasileiros nos últimos três dias, em meio ao impasse que culminou na suspensão do X (antigo Twitter) no Brasil na sexta-feira (30/8). A plataforma informou, em nota à BBC News Brasil, que estava com uma alta taxa de crescimento de novos usuários ao longo dos últimos dias. "Brasil, você está estabelecendo novos recordes de atividade no Bluesky!", anunciou a plataforma na sexta. A Bluesky (céu azul, em tradução direta) foi idealizada pelo mesmo criador do Twitter, Jack Dorsey, em 2019. Na época, era um projeto interno do Twitter, mas em 2021 se tornou uma plataforma independente. Atualmente, a responsável pela empresa é a executiva Jay Graber e a "equipe Bluesky", segundo detalha o perfil oficial da rede. A plataforma é semelhante ao antigo Twitter, porque permite que os usuários façam publicações curtas (até 300 caracteres). Na rede também é possível compartilhar, fotos, textos e republicar postagens de outros usuários. Desde o seu lançamento, a Bluesky considerou o Brasil como um país importante para a rede. Quando o X foi vendido para o bilionário Elon Musk, em outubro de 2022, muitos usuários começaram a deixar a plataforma e migrar para outras redes semelhantes, como a Bluesky. Em abril, quando teve início o imbróglio entre Musk e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), cerca de 100 mil brasileiros criaram contas no Bluesky, segundo divulgado pela plataforma. Na época já era cogitada a suspensão do X no país, diante dos frequentes ataques de Musk a Moraes e as recusas em atender aos pedidos judiciais no país. Mas o recorde de novos usuários brasileiros na Bluesky ocorreu entre sexta-feira e sábado (31/8), após Moraes determinar a suspensão do X no Brasil. LEIA TAMBÉM Além do X, WhatsApp e Telegram já foram suspensos antes no Brasil; relembre Entenda em 5 pontos a decisão de Moraes de bloquear o X e o que acontece agora Na quarta-feira (28/8), o ministro havia intimado Musk a indicar um representante legal no Brasil no prazo de 24 horas. Caso não cumprisse, a rede social seria suspensa no país. Na decisão de sexta, Moraes argumentou que a postura adotada por Musk na rede social incentiva discursos extremistas e antidemocráticos. Além disso, o bilionário estaria obstruindo a Justiça ao não seguir determinações como bloqueio de perfis na rede social e ao deixar de apontar um representante legal no país. O ministro do STF determinou que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) bloqueasse o X em todo o Brasil. No sábado (31/08), usuários de internet no Brasil já não conseguiam acessar a rede. Moraes fixou um prazo de até cinco dias para que todos os envolvidos na operação, incluindo empresas de telefonia e servidores, cumpram com o bloqueio da plataforma. Logo após a decisão, Musk reagiu em sua conta no X. Disse que “a liberdade de expressão é a base da democracia e um pseudo-juiz não eleito no Brasil está a destruindo para fins políticos”. O Brasil é o sexto maior mercado do X no mundo, com 21,5 milhões de usuários, segundo a plataforma global de dados e estatísticas Statista. O país só fica atrás de EUA, Japão, Índia, Indonésia e Reino Unido. Sem o X, usuários brasileiros buscaram novas plataformas que se assemelham à rede de Musk. Políticos, como o presidente Lula, e outras autoridades anunciaram suas contas em duas novas plataformas: a Bluesky e o Threads, da Meta. A Bluesky Em nota à BBC News Brasil, a Bluesky informou que o número de novos usuários brasileiros "cresce a cada minuto" nas últimas horas e a plataforma bateu recorde de interações. "O fluxo brasileiro também está estabelecendo novos recordes de atividade na rede, como o número de seguidores, curtidas etc. Estamos muito entusiasmados em recebê-los", disse a rede social, por meio de nota. Atualmente, a Bluesky tem 7,3 milhões de usuários em todo o mundo. A plataforma afirmou em nota que não possui dados detalhados das localizações de todos os usuários. Em razão disso, não divulga levantamento sobre quantos usuários da rede são brasileiros. "Mas os brasileiros foram uma das primeiras comunidades a se juntar a nós", disse em nota. A Bluesky afirma que modera ativamente as postagens com conteúdo indevido, como assédio, discurso de ódio e fake news. A plataforma afirma que conta com uma equipe global de moderadores e um time local se responsabiliza pela avaliação de postagens brasileiras. No site oficial da Bluesky, uma das características que a plataforma menciona é o objetivo de oferecer autonomia aos usuários para que possam ter acesso a conteúdo baseado em assuntos que os interessem. O Threads Outra plataforma que também se tornou alternativa após a suspensão do X é o Threads. O aplicativo parece quase idêntico ao Twitter: o limite de caracteres, a repostagem, o feed. É tudo bastante familiar. Criado em julho passado, o Threads foi desenvolvido pela Meta, dona do Facebook e do Instagram, para concorrer com o X. Em suas primeiras sete horas de funcionamento em julho passado, o aplicativo conseguiu dez milhões de usuários em todo o mundo. Isso ocorreu em parte porque ele está conectado ao Instagram. Uma funcionalidade do Instagram permite ao usuário, logo que ele se inscreve no Threads, a opção de "seguir todos" aqueles que ele já segue no aplicativo de fotos e vídeos. Essa opção oferece uma lista de seguidores pronta — mas essa lista pode crescer à medida que os seguidores que você tiver no Instagram se inscreverem no Threads. Como mostrou reportagem da BBC em julho passado, a Meta não estava criando um aplicativo do zero. A gigante de tecnologia se beneficiou de seus mais de 1 bilhão de seguidores no Instagram, que deram uma grande injeção de ânimo à nova empreitada. E diante do bloqueio do X, muitas pessoas criaram ou voltaram a usar seus perfis no Threads. A BBC News Brasil procurou a Meta para questionar sobre os números de novos usuários e interações nos últimos dias, a empresa, porém, não respondeu até a conclusão deste texto.

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